Archive for the ‘cidade’ Category

21
out

Aspectos do pensamento ético de Platão

   Posted by: Héctor Hugo Palacio Tags: , , , , , ,

O bem humano como justiça

Platao

Platao

Para Platão, o modo de agir dos homens (a conduta humana) não se compreende sem uma necessária relação com o porquê que orienta o universo e conseqüentemente o próprio ser. Daí que aquilo que denominamos bem ético referido imediatamente ao homem não é mais do que um aspecto ou dimensão do bem absoluto referido a tudo aquilo que existe. Assim, a antropologia, a ética e a política de Platão encontram-se construídas em estreita relação com a sua teoria do conhecimento e sua ontologia. Nesse sentido, a obra de Platão é a tentativa de realização de uma síntese grandiosa das correntes cosmológico-metafísicas dos pensadores anteriores (jônicos e eleatas), assim como das correntes éticas que se iniciaram com Heráclito, Demócrito, sem ignorar as idéias do sofista Protágoras e, acima de tudo, as idéias de Sócrates de quem foi o mais ilustre discípulo.

República - Chinard, Joseph

República - Chinard, Joseph

A obra em que essa síntese encontra sua melhor elaboração é a República. A questão central do diálogo pode ser formulada assim: ”Como devemos viver?”, e todo ele é dedicado a uma grande discussão em torno da “justiça” (diké) ou “da vida justa” que, para os gregos, equivale a vida moral. O problema para Platão consiste em fundar a moral sobre bases objetivas e racionais, na medida em que a moralidade pré-racional, fundada no costume, na religião e na observância dos preceitos tradicionais entrou em decadência e já não é mais suficiente para regular a vida dos indivíduos, em particular e, da polis em geral.

Democracia, Andrea del Sarto

Democracia, Andrea del Sarto

Diante da valorização crescente das próprias inclinações naturais e de uma demanda maior por “democracia” e “participação”, Platão pretende construir uma ética de controle de determinadas tendências, em vistas de um “bem superior” que, todavia, só poderia ser desvendado pelas classes mais favorecidas. Para que essa ética seja aceita, torna-se indispensável provar que ela é melhor, que é mais vantajosa para o homem. Dessa forma é, igualmente, preciso demonstrar que há uma determinada maneira de se comportar que é necessariamente boa para o homem, independentemente de suas conseqüências extrínsecas e sua posição social.

No entanto, para chegar até lá, Platão começa mostrando que os bens “menores” não passam de reflexos do Bem absoluto. O bem da cidade consiste que a mútua interdependência e subordinação das distintas funções de seus componentes seja fielmente guardada, isto é, que cada qual faça o que a ele corresponde. Esta é, inclusive, a essência da moralidade: a subordinação dos distintos elementos e tendências a um fim, uma tendência superior. E o que vale para o corpo político deve valer, com muito mais razão, para o indivíduo. Sua ausência leva ao caos interior e à autodestruição.

contemplação do Bem - Sodoma, II

contemplação do Bem - Sodoma, II

À auto-imposição da ordem se dá o nome de justiça (dike) ou “justeza” (dikaiosine), isto é, o cumprimento das normas por todos. Essa ordem não é uma exigência artificial e arbitrária, mas uma necessidade que vem da natureza do homem, sob pena de autodestruição. Se existe um Bem absoluto e objetivo, o bem particular de cada coisa e de cada homem está em relação com este Bem último ou supremo. Qual é, pois, o “bem da alma”, que vem a ser “o modo pelo e para o qual devemos viver”?  Não pode ser outro senão a contemplação do próprio Bem. É daqui que decorre o caráter ascético da ética platônica: a contraposição entre alma e corpo se amplia pela necessidade de abandonar todo território do efêmero e do mutável; de deixar para trás todos os impulsos e inclinações do sensível, mera aparência de realidade.

justica - dike

justica - dike

E, por que alguém deveria empreender o caminho ascético? Pela simples razão de que todos buscam “o bem real”. E o único bem real encontra-se no mundo das idéias, de onde todas as coisas retiram sua existência.  Nesse caso, a questão que se põe é: todos deveriam empreender o caminho ascético? Diferente de Sócrates, para quem todos deveriam empreender a busca de si mesmos, a resposta de Platão é que, embora todos desejem o bem “real”, apenas os sábios, os selecionados dentre os que revelaram maior capacidade intelectual, é que estão, por causa de sua elevada capacidade de visão, habilitados a se dedicar integralmente à ascese filosófica, isto é, à busca efetiva pelo bem real. Nesse caso, se a ele é dada essa capacidade, a eles deve ser dada, também, a responsabilidade correspondente, que é a de guiar os outros pela estrada da vida justa. Então, em sua tarefa de governar a cidade, os filósofos devem proporcionar aos outros cidadãos modos de educação tais que os tornem capazes, de acordo com suas respectivas naturezas, de participarem do bem real (ainda, naturalmente, que em menor proporção do que os filósofos, mas, de todo modo, na proporção possível e justa, de acordo com os desígnios do universo). Nesse sentido, há uma relação intrínseca entre a ética – que vem a ser o caminho dos sábios na procura da verdade e do bem – e a política justa, que vem a ser o governo dos sábios, os únicos capazes de darem normas verdadeiramente justas à cidade. Isto é, normas conformes à própria natureza do bem.

Nesse caso, teremos condutas diferentes de acordo com o tipo de homem que habita a cidade. Os artesãos devem ter como meta ética fazerem o melhor com suas habilidades técnicas. Os guerreiros devem ter como padrão a honra e a obediência militar e os filósofos devem ter como meta a busca da verdade. Apenas estes últimos é que precisam de ascese. Assim, a ética política do aristocrata Platão projeta um governo aristocrático, não democrático. É claro que, para justifica isso, Platão garante que a classe governante não pode ter outro objetivo senão a manutenção de uma cidade justa e feliz.

governo da cidade - Botticelli, Sandro

governo da cidade - Botticelli, Sandro

No entanto, há uma dificuldade aparentemente insolúvel: se todas as coisas do mundo são imperfeitas e o Bem é perfeito, então, a perfeição ética e política da cidade parece inatingível. O que significa dizer que numa cidade governada em função do Bem “real”, o bem “aparente”, “mundano” pareceria ser apenas uma cópia sem valor. Revela-se então o caráter da ética platônica: trata-se de um projeto idealista, em que o modelo perfeito é apenas um exemplar ideal que nunca poderá reproduzir-se exatamente, porém ao qual sem dúvida temos que tender incessantemente, se quisermos ter alguma chance de “verdadeiro bem”.

Nunca estará nas mãos do homem alcançar a perfeição absoluta neste mundo de aparências, mas se ele quiser ter uma chance de alcançar o próprio bem, ele deve, a cada momento, decidir-se por se aproximar ou se afastar desta perfeição. E côo pode o imperfeito aproximar-se do perfeito? Segundo Platão, há uma conaturalidade entre a alma humana e a perfeição, de tal modo que devemos tender a nos assemelhar ao Bem. Assim, a perfeição do Bem (e não o homem, como queria Protágoras) é a medida, a justiça, de todas as coisas.

tirania - BAciccio

tirania - BAciccio

Qual é o resultado prático de uma polis cujos cidadãos não aspiram à justiça? Platão mostra que aí só pode ocorrer a tirania, seu pior oposto: o tirano é o ser mais infeliz, porque não tem amigos, é escravo de seus apetites e vive com medo de todos os demais. Então, em último caso, todo bem individual só tem sentido côo parte de uma boa ordem social. O próprio bem individual é aquele que exige uma plena colaboração no bem social – que cada um faça o que lhe cabe. Portanto, o maior bem do indivíduo é, simplesmente, o bem da polis. É apenas deste modo que o pensamento platônico entende ser possível “arrancar” o homem do mero “egoísmo” de sua origem animal. A “humanidade” do “homem” assim é explicada pela visão da forma pura do Bem cósmico que a alma teve antes da queda para a corporeidade. É essa visão que permite ao homem existir,viver e se comportar como homem e, principalmente como filósofo.

Creative Commons License
Diálogo com os Filósofos by Héctor Hugo Palacio Domingues is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at www.dialogocomosfilosofos.com.br. SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline