
A idéia de Deus
À diferença dos escolásticos que partem do mundo para elevar-se a Deus (daí o nome de prova cosmológica dada a este procedimento), Descartes considera somente as idéias que se encontram em sua consciência e que são diz ele, como quadros ou imagens das coisas. Toda idéia representa qualquer coisa; tal é sua função. A idéia é como uma cópia, a causa de idéia e o original da qual ela é cópia. As idéias imaginárias (quimeras, ficções, fantasmas), não representam nada real, se reconhecem justamente pelo fato de que podemos compô-las e decompô-las livremente. Não é de jeito nenhum o caso da idéia de Deus para Descartes: não podemos tirar de Deus um só de seus atributos, definindo sua natureza (a onipotência, a eternidade, a infinitude, a onisciência, a bondade etc.), pois eles constituem um conjunto inesgotável.
A idéia de um ser infinito (que se encontra, segundo Descartes, em cada um de nós) não pode ter sido produzida por um pensamento humano finito, como é o do homem.
Como um ser finito e imperfeito, como o homem poderia forjar – quer dizer, construir todas as peças – idéia de um ser perfeito e infinito?
Esta idéia não é uma ficção (como, por exemplo, a idéia de uma montanha de ouro), ela representa um ser verdadeiro, e representa-o fielmente. Ela excede, ultrapassa a capacidade de nossos pensamentos e, mesmo sendo perfeitamente concebível e mesmo a mais clara e mais distinta de todas nossas idéias, ela e incompreensível: o pensamento humano não o rodeia, nem penetra a extensão de sua profundeza. Todas elas são provas para Descartes que esta idéia foi causada ou colocada no pensamento humano pelo próprio Deus.
Para Descartes, no resumo inicial das Seis Meditações, é impossível que a idéia de Deus que em nos existe não tenha o próprio Deus como sua causa.
Da existência de Deus é que provém a força das idéias claras e distintas; Deus este que, sendo bom e perfeito, não permitiria que o homem se enganasse acerca destas idéias. Se temos idéias das coisas exteriores e de que nos chegam através dos sentidos, é porque tanto nosso corpo quanto estas coisas existem, tendo sido criados por Deus.
Aqui se destaca o que está em jogo em sua época quanto ao problema da certeza: o conhecimento que tem o homem criado de sua segurança em mãos de seu criador e sobre o fato de estar compreendido na verdade de Deus. Se se submetesse essa base profundíssima da certeza a uma dúvida radical, correr-se-ia o risco de que o homem se afundasse na noite do ceticismo definitivo.
Descartes acrescenta, ao final de uma analise complexa e apaixonante, que esta idéia que não e como as outras idéias, que esta noção única de um Deus único, está no homem como a assinatura do autor sobre sua obra. É preciso compreender que a obra é por si mesma a marca de seu criador.
Idéias claras e distintas: critêrio do conhecimento

Apoiadas na existência de Deus as idéias claras e distintas passam a ser o critério do conhecimento: justificam não só a possibilidade de conhecer, como também constituem-se em ponto de partida para a busca de novas certezas.
Descartes, desde logo, podia indicar que precisamente no ponto mesmo em que se desmoronam todas seguranças do saber surge uma nova certeza.
Nessa forma, o ceticismo não é o final na crise da consciência em que se anuncia a época moderna. Descartes encontrou o caminho para uma nova certeza. No torvelinho das incertezas ha algo que permanece indubitável: o fato da própria existência. O fato, de que Descartes não visse, como o haviam feito quase sem exceção os filósofos da Idade Media, o lugar da certeza. origináaria em Deus, mas o tenha deslocado para homem, emprestou o caráter decisivoà Filosofia posterior. Desde então, pertence ao pensamento moderno, mas ou. menos explicitamente, o conceito de que o homem se atém a si mesmo e se abandona à certeza que surge nele mesmo. É a autonomia do eu, que tem em Descartes a fundamentação filosófica primordial e decisiva.
Com a certeza de si, contudo, havia-se estabelecido apenas o alicerce e era preciso levantar sobre ele o edifício da Filosofia. Com esse fim, Descartes investiga primeiramente o que é esse eu consciente de si mesmo. Como se encontra a si mesmo na reflexão, é definido como ser pensante. É assim que se experimenta a si mesmo. Porém, quando Descartes prossegue meditando sobre isso não permanece na auto-experiência, mas serve-se de conceitos tomados da experiência das coisas do mundo. Chama o eu de “coisa pensante”, entendendo-o como algo no qual se encontram as propriedades de pensar, querer e sentir da mesma forma que o calor e o peso, nas coisas físicas. Desse modo, porém, se distorce a visão da particularidade do eu como característico do ser humano. E, contudo, com seu descobrimento da certeza de si, Descartes indica o caminho para todas as perguntas sobre a natureza do homem. Como diferente do mundo das coisas.
No conceito do homem, tal e como o apresenta Descartes, abre-se caminho para uma segunda conseqüência funesta. Para ele, a natureza do eu é pensamento e nada mais; desde logo, o significado no sentido mais amplo, ou seja, abarcando o sentir e o querer ou, em poucas palavras, todo o campo da consciência. Porém, com isso, abre-se um abismo dificilmente transponível pelo homem, como ser consciente, como “coisa pensante”, e os outros seres não conscientes, não pensantes. Não se considera o eu como o homem concreto em seu mundo concreto. O eu, que só vive na consciência, perde o contato com as coisas. Foi assim como se iniciou com Descartes a divisão moderna da realidade em sujeitos desligados do mundo, por um lado, e puros objetos, por outro, que pesa hoje em dia sobre a filosofia relativa ao homem e ao mundo.
Com o descobrimento da certeza de si e com a investigação da essência do eu, nem tudo esta feito. Porque ainda resta a possibilidade, surgida ao final da via dubitativa, de que o homem pudesse encontrar-se fundamentalmente em erro. Com a incerteza, Descartes encontra-se diante do tema decisivo da Metafísica, ou seja, a questão da origem de toda a realidade e a questão de Deus. Porque aquele erro fundamental sob o domínio do conceito da criação pressupõe considerar a Deus como embusteiro. Descartes tem, portanto, de tentar mostrar que Deus é veraz. Mas para poder fundamentar essa tese, ele tem antes de demonstrar que Deus existe.
Nessa intenção, Descartes parte do fato de que o homem encontra em seu interior a idéia de um ser perfeitíssimo. Ora, essa idéia, na opinião de Descartes, não pode proceder do próprio homem, porque deve exc1uir-se a possibilidade de que o ser imperfeito “homem” possa engendrar em si mesmo essa idéia sobre o ser perfeitíssimo. Assim, de onde procede a idéia que tem o homem? Descartes responde que somente o próprio ser perfeitíssimo pode implantá-la nele. Unicamente Ele pode ser autor da idéia relativa à suma perfeição. Isso indica que Deus, como origem da idéia que tem o homem sobre o ser supremo, deve existir necessariamente. Porem, se Deus é perfeito, não pode ter posto o homem fundamentalmente no erro. Por fim, Deus não é um embusteiro, mas, ao contrario, deve ser a verdade pura. Resolve-se, desse modo, a dúvida total.
Ao voltar a ter, assim, a certeza da existência e da veracidade de Deus, o homem, que por um instante se encontrou no isolamento perigoso da consciência de si mesmo, sabe-se inc1uído novamente na ordem protetora da criação. Não obstante, essa metafísica continua subterraneamente ameaçada, porque a prova da existência de Deus, tal como a apresenta Descartes, ao ser examinada mais de perto se revela um circulo vicioso. Descartes fundamenta-se no fato de que é impossível o homem engendrar por si mesmo a idéia de um ser perfeitíssimo, já que um ser finito, como o é o homem, não pode ser causa da idéia sobre o infinito, pelo fato de a causa dever ser pelo menos tão perfeita quanto o causado. O infinito, precisamente como tal, é infinitamente mais perfeito que o finito. Mas de onde essa afirmação sobre a relação entre causa e efeito obtém sua verdade? Descartes responde que esse conceito resulta evidente de maneira direta, que é originariamente verdadeiro. Porém, pode haver uma certeza originaria enquanto permaneça aberta a pergunta dubitativa de se o homem não foi situado por Deus no erro básico, também e precisamente no que se refere a suas certezas originarias? Assim, enquanto a prova da existência e da veracidade de Deus não seja completamente satisfatória, o principio da compreensão imediata continuará sendo também duvidoso. Se descartes fundamenta sua prova da existência de Deus precisamente nesse principio, que, em verdade, se depreende primeiramente ela, essa prova não é senão um circulo vicioso. Assim, a tentativa de Descartes de reconstruir a Metafísica fracassa já de inicio.
Apesar de tudo isso, Descartes é o principal motivador da filosofia posterior, tanto em seus traços metafísicos quanto em suas tendências iluministas, tanto em seus pensamentos crentes quanto em sua desesperação niilista.
Se a dúvida foi o ponto de partida para que Descartes chegasse a esses primeiros princípios do qual deriva sua filosofia, o modelo de raciocínio que utilizou para chegar até eles foi o da Matemática, pelas certezas e evidências que possibilita.
As Matemáticas

Assim, a busca de idéias claras e distintas tem por modelo não o raciocínio 1ógico, mas o matemático. Descartes preocupa-se em descobrir verdades da mesma forma que, na Matemática, pode-se identificar uma incógnita a partir da descoberta de relações.
As regras metodológicas de Descartes indicam o caminho que o individuo deve percorrer para chegar a verdades; neste sentido, as regras constituem-se em “exercício” do processo de descoberta que, segundo Brehier …consistiria, antes de tudo, em levar o espírito à pose de alguns esquemas, que permitiriam saber, ante o problema novo, de quantas verdades e de que verdades depende sua solução.
As regras metodológicas de Descartes evidenciam, por outro lado, a necessidade de ordenação, a qual também está presente no raciocínio matemático. Em As paixões da alma, Descartes afirma:
… é esta a essência do pensamento matemático, desse pensamento para o qual ‘razão’ não significa mas do que proporção ou relação. proporção ou relação que, por si mesmas, estabelecem uma ordem, e por si mesmas se desenvolvem em série. E são as leis deste pensamento que as regras do Discurso nos ensinam, pelo menos as três ultimas….
Assim, a ênfase na dúvida e no modelo matemático de raciocínio reflete-se nas regras metodológicas por ele propostas, meio através do qual a razão chegaria a certezas claras e evidentes, evitando os erros; em outras palavras, o método é o mecanismo que assegura o emprego adequado da razão nas suas duas operações intelectuais fundamentais: a intuição e a dedução.
A intuição consiste numa apreensão de evidências indubitáveis que não são extraídas da observação de dados através dos sentidos. Tais evidencias são frutos do espírito humano, da razão, sobre as quais não paira qualquer dúvida.
A dedução consiste na conclusão à qual se chega a partir de certas verdades-princípios. As verdades (conc1usões) derivadas das primeiras estão a elas ligadas intrinsecamente. Assim, o principal aspecto da dedução é a idéia de que as verdades indubitáveis guardam entre si uma relação de necessidade, ou seja, uma decorre necessariamente da outra.
A importância que Descartes atribuiu à Matemática revela-se em dois aspectos de seu pensamento: um deles, como já se viu, é o fato de que adota o raciocínio matemático como modelo para chegar a novas verdades; o outro aspecto é o de que Descartes vê o mundo de forma matematizada.
As noções matemáticas estão presentes na concepção da matéria que é para ele extensão, isto é, tem comprimento, largura, espessura; ao explicar os fenômenos, Descartes não se detém, portanto, nas suas qualidades sensíveis (cor, odor, som … ), mas procura buscar sua essência que, segundo sua concepção, é matemática.
De acordo com Koyré,
… exdui da ciência, recorde-se, tudo o que não era idéia clara, o que quer dizer, para ele, qualquer idéia abstrata do sensível, qualquer idéia com sua marca. Só é claro, quer dizer, inteiramente acessível ao espírito, aquilo que a inteligência concebe sem nenhum concurso da imaginação e dos sentidos. O que praticamente, quer dizer: só é claro o que é matemático ou, pelo menos, matematizável
Ao dizer matemático, Descartes tem como referencia a Geometria e isto fica evidente não só em seu conceito de matéria – que é vista como comprimento, largura e espessura – como em sua concepção de movimento. Este é, para Descartes, exclusivamente geométrico; não envolvendo a noção de tempo, são consideradas apenas a trajetória, a direção e a posição. Sendo encarado como translação no espaço – passagem dos corpos de um lugar para outro – o movimento é havido como entrechoque de corpos, já que Descartes admite a divisão indefinida da matéria e, portanto, não aceita o espaço vazio ou vácuo.
Não havendo espaço vazio no universo, e sendo o movimento a passagem dos corpos de um lugar a outro, na medida em que um corpo se choca com outro, passa parte de seu movimento a este segundo. Conseqüentemente, a quantidade de movimento existente no universo, como um todo, é fixa, e sempre a mesma, já que, quando um corpo perde certa quantidade de movimento, esta é transferida, em igual proporção àquele com o qual se choca. Ao explicar os fenômenos pelas noções de extensão e movimento, este como entrechoque de corpos, Descartes apresenta uma visão mecânica de mundo:
A noção aristotélica de mundo – um universo finalista, hierarquizado, em que cada coisa tem sua função e seu lugar e onde a terra é o centro – é destruída por Descartes, que põe em seu lugar extensão sem limites e sem fim ou matéria sem fim nem limites: para Descartes, é estritamente a mesma coisa. E movimento sem tom nem som, movimentos sem finalidade nem fim. Deixa de haver lugares próprios para as coisas: todos os lugares, com efeito, se equivalem perfeitamente; todas as coisas, de resto, se equivalem igualmente. São todas apenas matéria e movimento. E a terra já não está no centro do mundo. Não há centro. Não há mundo. O Universo não esta ordenado para o homem: não está sequer ordenado. Não existe à escala humana, existe a escala do espírito. É 0 mundo verdadeira, não o que os nossos sentidos infiéis e enganadores nos mostram: é aquele que a razão pura e clara que não se pode enganar reencontra em si mesma.
Para Descartes, com efeito, a distinção entre o espaço e a matéria que o encheria é um erro baseado na substituição da razão pela imaginação. A extensão cartesiana, geometria reificada, é, ao mesmo tempo, espaço e matéria. A estrutura do mundo não implica qualquer finalidade e não se explica para um fim. Resulta das leis matemáticas do movimento.
A explicação mecânica do mundo vai ser identificada, no pensamento de Descartes, não só em relação ao mundo físico, como também em relação aos sentimentos do próprio homem. Por exemplo, na sua obra As paixões da alma, Descartes escreve
… O movimento do sangue e dos espíritos do amor… Todas essas observações, e muitas outras que seria por demais cansativo relatar, possibilitaram-me concluir que, quando o entendimento se representa qualquer objeto de amor, a impressão que tal pensamento realiza no cérebro dirige os espíritos animais, por intermédio dos nervos do sexto par, até os músculos localizados em volta dos intestinos e do estomago, de maneira exigida afim de que o suco dos alimentos que se transformou em sangue novo, passe imediatamente para 0 coração sem se deter no fígado, e, sendo aí estimulado. Com mais vigor do que o é em outras partes do corpo, a penetrar no coração com maior abundancia e ativar um calor maior por ser mais grosso do que aquele que já foi diluído muitas vezes ao passar e repassar pelo coração; isso o faz enviar também espíritos ao cérebro, cujas partes são mais grassas e mais agitadas que habitualmente; e esses espíritos, ao fortificar a impressão que o primeiro pensamento a respeito do objeto amado nele provocou, forçam a alma a deter-se nesse pensamento. Isso é o que constitui a paixão do amor.
O mecanicismo de Descartes só não se estende ao pensamento, e a explicação disto pode ser encontrada na distinção que faz entre a alma e o corpo humano. Na Sexta Meditação, escreve:
E, apesar de, embora talvez (ou, antes, com certeza, como direi logo mais) eu possuir um corpo ao qual estou muito estreitamente ligado, pois, de um lado, tenho uma idéia clara e distinta de mim mesmo, na medida em que sou apenas uma coisa pensante y sem extensão, e que, de outro, tenho uma idéia distinta do corpo, na medida em que é somente algo com extensão e que não pensa, é certo que este eu, ou seja, minha alma, pela qual eu sou o que sou, e completa e indiscutivelmente distinta de meu corpo e que ela pode existir sem ele.
Como se pode observar, ao distinguir corpo e espírito, Descartes atribui um valor diferente para cada um deles. Ao caracterizá-los, aponta que o corpo humano se identifica com os demais corpos do universo: é extenso, se movimenta e pode ser explicado mecanicamente. Já a alma ou espírito é a essência do ser humano e, diferentemente dos outros corpos, é inextensa e indivisível. Ao descrever as funções de cada um destes elementos (corpo e alma), Descartes afirma que certas experiências humanas ocorrem em virtude da união deles; é o caso, por exemplo, das sensações (luz, som, cheiro, gosto …. das emoções (cólera, alegria, amor … ) e dos apetites (comer, beber). Assim, é pela participação do corpo nas emoções humanas (embora as denomine paixões da alma), que Descartes descreve de forma mecânica.
À alma cabe pensar, o que envolve entendimento (responsável pelo conhecimento) e vontade (à qual estão ligados o desejo, a negação e a dúvida). É à alma que cabe, então, a principal função na produção do conhecimento: desvendar o que as coisas são. A isto se chegara, segundo Descartes, através da razão, único elemento que, pelo método cartesiano, é capaz de chegar a leis ou princípios gerais acerca das coisas. Dos princípios gerais pode-se, então, deduzir efeitos ou decorrências, que constituem novos conhecimentos, ou novas verdades claras e evidentes. Segundo Descartes, só pela razão se poderia chegar a estas verdades porque os principais atributos da matéria (a extensão e o movimento) não podem ser percebidos pelos sentidos, ao contrario de propriedades que, para serem identificados, precisam de sua participação, como a cor, o som etc.
Descartes, ao contrario de Galileu, não se pergunta sobre como a natureza é ou se comporta, mas sim sobre qual o curso que a natureza deve seguir. Isto revela sua postura quanta à causalidade que é entendida como a conexão necessária entre fatos, em que um é a razão da ocorrência de outro. No entanto, em vez de observar a natureza e partir em busca das causas dos fenômenos com os dados da observação, aceita que a elaboração de relações causais ocorrera por deduções racionais em que, partindo-se de princípios gerais, chegar-se-ia as suas decorrências ou efeitos.
À experiência (observação e experimentação) caberia, portanto, o papel de confirmar as possíveis “suposições” deduzidas dos princípios gerais. Alem disso, é também aos sentidos que cabe conhecer a existência das coisas, assim como o papel de “desempate”, ou seja, dentre todos os efeitos possíveis de se deduzir das leis gerais da natureza, é a experiência que auxilia na verificação de quais os que efetivamente se realizam. Para Descartes, portanto, a experiência acaba tendo de se subordinar à razão, na medida em que se restringe, praticamente, a uma função comprobatória. A superioridade do papel da razão em relação ao da experiência fica expressa em vários trechos de sua obra: Pois é, ao que me parece, apenas ao espírito, e não ao composto de espírito e corpo, que cabe conhecer a verdade dessas coisas.
Se através da razão chegamos a verdadeira essência das coisas, se o método proposto propiciaria o uso adequado da razão no caminho da descoberta das idéias claras e distintas, e se Deus é bom e verídico, o que imprimiria confiança a tais idéias, como explicaria Descartes o erro, muitas vezes cometido pelo homem?
A moral

É do uso inadequado do método ou mesmo do desprezo ao seu uso que decorre o engano. Este advém do homem quando não usa de forma adequada as faculdades do espírito, expandindo a vontade alem dos limites da compreensão. Sendo o entendimento finito e a vontade infinita, esta pode ultrapassar os limites do conhecimento claro na busca precipitada da verdade, acabando por fazer com que se assumam como verdadeiras noções ainda confusas. A partir desta concepção nota-se que… a liberdade do homem intervém aqui, com a possibilidade dum bom ou mau uso. Procurando a causa do erro, (é assim que) Descartes desenvolve a sua concepção de liberdade.
Quando se duvida já se esta exercendo a liberdade, que pode ou não recusar verdades claras e evidentes. Para que a vontade seja corretamente exercida, deve, portanto, submeter-se ao entendimento, caso contrário incorre-se em erro. O entendimento como guia fornece o critério que possibilita distinguir o verdadeiro do falso e assim fazer uma escolha. A vontade, existente na alma humana, exercendo sua liberdade, é que pode nos desvencilhar do erro e levar-nos a atingir a verdade.
Na terceira parte do Discurso, Descartes, interrompendo a exposição de seu método, expõe as máximas daquilo que ele chama uma moral por provisão, necessária para o tempo em que sua busca absoluta da verdade o obriga a colocar tudo em duvida, pois, durante esse tempo, é necessário viver, e viver, para Descartes, leva à escolha de princípios ou regras que permitam orientar-nos na vida, da mesma maneira que a bússola e o compasso são necessários para a navegação. Para agir no mundo, uma doutrina é de uma utilidade bem menor do que as regras práiticas que seguimos aberta e firmemente.
Se em relação ao conhecimento do mundo Descartes propõe que se deve partir de certezas, no que se refere à moral, o mesmo não ocorre. Neste campo, em que em dado momento as certezas podem não ser possíveis, Descartes mostra a necessidade de partir de alguns preceitos, ainda que provisoriamente (embora Descartes tenha proposto estas máximas inicialmente com um sentido provisório, elas acabaram por ter um caráter definitivo já que, apesar de retomar suas preocupações sobre a moral, no final de sua vida, não as reformulou). Estes deveriam nortear a ação do homem enquanto não se tivesse constituído a filosofia que esc1arecesse tal ação. É considerando a necessidade de viver da melhor forma possível que Descartes defende a noção de que, no que diz respeito à prática da vida, não deve pairar a irresolução, propondo, assim, uma ‘moral provisória’.
Como guia da ação moral humana, Descartes propõe três máximas. A primeira é
… obedecer às leis e aos costumes de meu país, mantendo-me na religião na qual Deus me concedera a graça de ser instruído a partir da infância, e conduzindo- me em tudo o mais, de acordo com as opiniões mais moderadas e as mais distantes do excesso, que fossem comumente aceitas pelos mais sensatos daqueles com os quais teria de conviver.
Na segunda, indica que se deve agir com decisão, mesmo que diante de uma opinião duvidosa. Considerando o fato de que a vida exige muitas vezes urgência nas ações. Descartes recomenda,
Ser o mais firme e resoluto que possa em minhas ações, e não seguir com menor Constancia as opiniões mais Duvidosas como se elas fossem as mais seguras, uma vez esteja determinado… E assim como as ações da vida não suportam às vezes atraso algum, é uma verdade muito certa que, quando não está em nosso poder o distinguir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis.
Em relação a essas opiniões prováveis Descartes afirma que: uma vez tendo se decidido por elas, deve-se agir como se fossem verdadeiras. .
Na terceira, propõe procurar sempre me vencer antes que tentar cambiar a ordem do mundo: e sempre acostumar-me a crer que não há nada que esteja totalmente em nosso poder, mesmo nossos pensamentos….
Paralelo à certeza que o entendimento pode ter sobre as verdades especulativas, há uma certeza que vem da vontade quando o homem age e pensa com resolução nas diversas situações da vida em que não é razoável escutar verdades como aquelas que demonstramos em Matemática e em Metafísica.
É interessante perceber que, se em relação à produção de conhecimento Descartes apresenta uma posição de questionamento revelada na regra metodológica da dúvida, relativamente à moral apresenta uma postura conformista. Em uma carta dirigida a Elisabeth (4 de agosto de 1645), Descartes diz que as três regras de moral expostas em seu Discurso permite a cada um ficar contente de si próprio e não esperar nada mais.
Conclusao

O cógito ergo sum cartesiano responde à seguinte reocupação: à necessidade radical de não buscar nenhum fundamento externo, para garantir a autonomia. Algo pode ser aceito como verdadeiro, se satisfizer exclusivamente critérios claros e distintos. A tese metafísica da subjetividade adquire força, justamente porque o pensar descobre a certeza apodíctica de que o pensamento está dado e, por conseqüência, o eu. A busca da certeza leva o pensamento a se instalar como reflexão de si mesmo. Segundo Descartes,
… enquanto eu queria assim pensar que era tudo falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que essa verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar, julguei que podia aceitá-la sem escrúpulo, como 0 primeiro principio da Filosofia que procurava.
Pensar e representar, trazer as coisas diante de si mesmo como representadas; desse modo, a consciência de si é condição de possibilidade para a consciência do objeto. Isso tem como conseqüência a objetivação do presente no modo de proceder das ciências modernas, gerando a racionalidade instrumental e as mais diversas formas de dominação.
Descartes considerava que os procedimentos dos antigos e escolásticos não assegurariam as bases da ciência universal, sendo necessária a criação de um método que assegurasse a verdade. Por isso, abaixo do titulo Discurso do método (1637), aparece o explicativo para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências. O pensar claro e distinto, a partir de um modelo matemático, torna-se critério de verdade. A opção metodológica cartesiana, ao trazer o apreço pela Matemática, traz também a desconfiança com relação as opiniões e crenças do mundo, à diversidade que é estranha à razão. Para que a tarefa de bem usar a razão obtenha êxito, deve-se seguir passo a passo um método.
Com Descartes, instaura-se a consciência subjetiva, racional e autônoma, a qual pretendia superar as concepções metafísicas que concediam exterioridade a fundamentação da razão. Não mais devedora de forças mágicas e princípios supra-sensíveis, a racionalidade moderna prepara o caminho para o avanço triunfal das ciências.

Descartes










