Archive for the ‘Estoicismo’ Category

23
out

Estoicismo: o bem humano como virtude

   Posted by: Héctor Hugo Palacio Tags: , , ,

 

Zenão de Citio

Zenão de Citio

 

Fundado por Zenão de Cítio, seu principal apelo era uma doutrina ética orientada para “ajudar o indivíduo a suportar a adversidade”. Suas principais idéias são:

  1. Determinismo cósmico – o acaso não existe: o curso da natureza (ou Deus) é rigidamente determinado por leis racionais.
  2. Princípio da virtude – a vida humana só está em harmonia quando a vontade individual é dirigida conforme as determinações da natureza.  Portanto, a virtude é o único bem da vida humana. Coisas como a saúde, a felicidade, os bens materiais não contam.
  3. Princípio da liberdade – se a virtude está na vontade submissa às leis naturais, então, tudo depende apenas do próprio homem. Ele é livre para ser virtuoso e ter, assim, uma vida boa.
  4. Renúncia às emoções – não apenas as más, mas todas as emoções, inclusive o amor, devem ser deixadas de lado.
  5. Ação pública unicamente como exercício para a virtude – não se deve agir pelo desejo de beneficiar a humanidade: tudo será ciclicamente consumido pelo fogo original e, portanto, não há muito sentido em ajudar os outros. E qualquer constituição política deve ser indiferente ao sábio.
  6. Princípio da imperturbabilidade (apatia ou akrasia) – a adversidade, a crueldade e a injustiça constituem as melhores oportunidades para o exercício da virtude. Diante delas o homem deve permanecer inteiramente indiferente e tudo suportar com fortaleza e dignidade.

Para os estóicos, a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida; em outras palavras, a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral, para afirmar a virtude como único e primeiro bem. Uma vida de virtude pode, em conseqüência, assegurar ao homem a felicidade. Mas a felicidade do homem virtuoso não é o prazer: é a libertação de toda perturbação, a indiferença universal (apatia) e a independência interior (autarquia).

Cícero

Cícero

No estoicismo do período helenístico-romano a doutrina sofreu algumas modificações: para Cícero, por exemplo, o homem político só atinge a virtude suprema se sua atuação estiver voltada para o bem de seu povo. Mas foi apenas a partir do último período que o estoicismo adquiriu efetividade importante na cultura ocidental. É provável que a maior contribuição original da cultura romana seja o direito (jus), um valor tão universal como a filosofia grega. Então, no período imperial-romano o estoicismo teve a propriedade de juntar esses dois elementos, produzindo uma idéia de grande efeito em épocas posteriores: o cosmopolitismo racional radical. É que os estóicos a partir dessa fase começaram a distinguir o direito natural (jus naturale) do direito hereditário (jus gentium). E criaram a base doutrinária do direito natural.

Se por natureza todos os homens são iguais (noção inteiramente desconhecida no mundo antigo e clássico, no qual a justiça existia apenas para os concidadãos livres e íntegros), abre-se caminho ao sentido de benevolência e de perdão, até para com os infelizes e os escravos, os estrangeiros e os inimigos. Alguns dos preceitos dessa doutrina moral foram adotados pela Igreja cristã, que se tornou progressivamente dominante no fim do Império Romano e depois no período medieval. E foram juristas franciscanos, por volta do século XI d.C., que invocaram as idéias estóicas da lei natural e da igualdade natural para fundamentar o primeiro “direito” tipicamente moderno – a liberdade de consciência.

17
out

A Tragédia Grega

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A tragédia grega

Segunda Parte

Homero e a tragédia

o incendio de troia - Elsheimer, Adam

o incendio de troia - Elsheimer, Adam

Os poemas de Homero, tanto a Ilíada como a Odisséia, oferecem vários desses momentos de infelicidade pelos quais os grandes passam: o desespero de Aquiles quando perde o seu amigo Pátroclo num combate; o encontro de Ulisses com Aquiles na morada dos mortos; a desgraça de Heitor, o bravo guerreiro morto num duelo pela defesa da sua cidade; a humilhação de Príamo, o velho rei de Tróia, que é obrigado a suplicar a Aquiles pela devolução do corpo do filho. O objetivo do poeta porém não é exatamente o mesmo do autor dramático. Esses episódios da “Ilíada” e “Odisséia” fazem parte da narrativa geral cuja intenção é enaltecer a bravura e os feitos dos combatentes e não provocar a compaixão ou qualquer outro sentimento piedoso nos leitores ou ouvintes. Segundo Albin Lesky “a epopéia homérica é para a objetivação do trágico na obra de arte somente um prelúdio.”

 

Os postulados do trágico

Hercules no palacio de Omphale - Bellucci, Antonio

Hercules no palacio de Omphale - Bellucci, Antonio

Para poder-se dizer que um espetáculo é uma tragédia é preciso que ele apresente certas características facilmente identificadas pelo público. Em primeiríssimo lugar, deve revelar a dignidade da queda. O herói é sempre uma figura reconhecidamente grande, importante, que consegue manter a integridade moral quando as coisas desandam ao seu redor. É pois, um estóico. Depois, há de verificar-se a importância da altura da queda, transmitindo a idéia da caída de um mundo de segurança e felicidade, que se vê ilusório, para as mais profundas das misérias. Queda, diga-se, que o herói deve aceitar em sua consciência. Não se entende como tragédia o caso da vítima ser alguém sem vontade, conduzido como se fosse um surdo-mudo para a desgraça, um marionete inconsciente dos deuses. E, por último, a tragédia resulta de uma falta absoluta de solução. Não há outra saída do que aquela determinada pelos acontecimentos que vão se descortinando frente ao herói.

 Estoicismo e tragédia

 

morte de Seneca - David, Jacques-Louis

morte de Seneca - David, Jacques-Louis

A tragédia também tornou-se uma inspiração para a filosofia estóica que, desde os seus princípios, estava determinada a demonstrar os terríveis estragos que a paixão humana provocava. O sábio estóico Sêneca (4 A.C.- 65) serviu-se de peças com urdidura trágica como uma admoestação e advertência para mostrar o desespero que acomete aqueles que se deixam guiar por elas ao não saberem impor limites ao ardores do coração, submetendo-o aos poderes da lógica (esta, comumente, foi a interpretação da tragédia que chegou a nós no Ocidente com força bem maior do que aqueles que os grandes autores dramáticos da Ática lhe davam).

Cristianismo e tragédia

Susanna - Batoni, Pompeo

Susanna - Batoni, Pompeo

Para alguns autores cristãos a tragédia é um gênero que pertence exclusivamente ao mundo pagão. O cristianismo teria banido a tragédia por que ela simplesmente não se enquadra na idéia da alma pecadora que atinge sua redenção por uma graça de Deus, pois não há salvação nem perdão para o herói trágico. Ela, a tragédia, só seria possível na cultura pré-cristã que desconhecia os princípios do arrependimento e da absolvição, ou o gesto inesperado e miraculoso da graça divina (o artificio do Theos ex machiné, largamente utilizado por Eurípides, foi interpretado por muitos como um recurso teatral, não pertinente à essência da concepção grega da tragédia). Pode-se até conjeturar ter sido a própria vida de Cristo uma tragédia definitiva, uma catástrofe moral de tamanha dimensão que superou todos os possíveis dramas, não deixando espaço emocional para que nada mais pudesse emparelhar-se ao sofrimento do Salvador. A representação popular da paixão e do martírio de Jesus, que até hoje é encenada nos autos religiosos, inibiu para sempre a dramaturgia cristã.

 Originalidade do teatro

Diana e Acteon - Cesari, Giuseppe

Diana e Acteon - Cesari, Giuseppe

Sabemos que os poetas da Grécia Antiga exploraram outros gêneros, tais como o drama satírico e a comédia, mas nenhum deles teve a transcendência alcançada pela tragédia, fazendo com que o espetáculo trágico fosse o que mais profundamente se enraizou na tradição cultural moderna.

Apolo e a musa cumean - Cerrini, Giovanni Domenico

Apolo e a musa cumean - Cerrini, Giovanni Domenico

Muitas das contribuições culturais que nos chegaram pela mãos dos gregos, tais como a Filosofia, a Geometria, a Pintura Cerâmica, a Arquitetura, a Música, a História, a Medicina, a Literatura Épica e Lírica, a Mitologia, etc., com certeza eram de origem Oriental. O mesmo, porém, não se deu com o Teatro. Se Pitágoras e Platão abeberam-se da filosofia e da geometria egípcia ; se Heródoto inspirou-se nas crônicas anatólicas, persas e egípcias; se mesmo Homero inspirou-se em narrativas épicas de outros povos, tal não pode dizer-se dos autores trágicos. A Tragédia é a mais pura criação da cultura grega antiga e, quando transplantada para outras culturas, não encontrou a mesma receptividade.

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