
Aristóteles
Aristóteles é o grande organizador da ciência de seu tempo e a Ética a Nicômaco é o texto básico do pensamento ético e pedagógico do estagirita. Aristóteles é, igualmente, o mais famoso dos discípulos de Platão. Na Ética a Nicômaco o pensador quer responder à seguinte questão: diante da imperfeição humana é possível estabelecer uma prática de ensino que contribua para o crescimento moral através do conhecimento da virtude?
Para Sócrates, a virtude (Areté) não pode ser adquirida sem antes ser conhecida. Como o mal é resultado da ignorância, o ser humano tem necessidade de uma busca filosófica para encontrar a verdade onde se esconde a virtude. Já para Platão, a virtude só pode ser conhecida pela visão atenta (contemplação) que a alma teria da forma da virtude, derivada da idéia do Bem. Para o filósofo da Academia, só um contínuo ciclo de reencarnações possibilitaria a contemplação plena do Bem pelos seres humanos, dotados de alguma imperfeição e, mesmo assim, jamais se conseguiria realizá-la totalmente neste mundo.

alegoria da virtude - Blanchard, Jacques
Ora, para Aristóteles, o homem não pode determinar por si mesmo a sua finalidade. A natureza determinou que esta fosse a felicidade (eudaimonia). Mas se o homem não pode determinar sua felicidade, poderia, no entanto, aprender a determinar as ações relativas ao “como” alcançá-la. E, naturalmente, pode também escolher o grau de importância e o tipo dessas ações, de modo a fazê-las bem ou mal.
Aristóteles admite, portanto, a possibilidade de seres humanos imperfeitos serem capazes de nesta vida, vislumbrar o bem e praticar ações virtuosas por meio de um desenvolvimento moral ao longo do tempo. O aprendiz moral deveria ser introduzido aos bons hábitos por meio de uma prática intensiva que fosse progressivamente acostumando-o a ser nobre e justo. O próprio exercício ativaria o potencial cognitivo capaz de fazê-lo desejar se engajar cada vez mais firmemente em seu processo de amadurecimento dos valores morais e chegar finalmente à sabedoria.

alegoria da felicidade - Gentilseschi, Orazio
Todo homem deseja a felicidade, pensavam os gregos. Mas como se chega a ela? Para Aristóteles só é possível ser feliz quando se realiza a “humanidade” em sua dimensão mais elevada. É claro que o pensamento atua em todos os homens, ainda que em níveis diferentes. É por isso que existem homens de variadas capacidades e condições. Ocorre que o próprio logos ou “pensamento cósmico” dispõe a espécie humana de tal maneira que nunca há homens sozinhos: os homens só existem quando se juntam em cidades, em polis. Eis por que, segundo Aristóteles, o homem é um “animal político”. Assim a polis simplesmente existe, como existem montanhas e plantas.
E, da mesma forma que cada homem precisa usar o logos da maneira mais adequada de modo a atingir a felicidade, a polis também precisa de determinações recíprocas (em função do logos) que resultem de uma convenção ou entendimento (nomos) entre os homens que nela habitam. Esse entendimento deve conduzir todos os habitantes na busca do máximo bem que é, ao mesmo tempo, o melhor governo (eunomia). Mas para que os homens possam basear-se no logos em seu agir moral, é preciso que o legislador torne os cidadãos bons, inculcando-lhes bons costumes – porque nos tornamos justos executando atos justos e acabamos, com o tempo, encontrando satisfação praticando boas ações. É por meio de um exercício constante de condutas apropriadas (virtude) que o logos se exprime corretamente. E é na prática desse exercício – vida ética – que os homens podem construir instituições e costumes que permitam a boa vida compartilhada. O conjunto dessas instituições e costumes é exatamente a cidade virtuosa.

alegoria das artes - Goya y Lucientes, Francisco
E qual seria, então, o comportamento que expressa o logos corretamente? Há em algum lugar, fora do mundo material, como em Platão, um quadro de formas de virtude esperando para serem lidas e aplicadas pela alma mediante seu esforço de ascese? A resposta de Aristóteles é que as virtudes decorrem de uma “atividade adequada”, isto é, de uma conduta acorde com o logos. Isso é possível graças ao fato de que a natureza humana é a de ser capaz de logos. E para que essa atividade possa ser adequada e adequadamente caracterizada, torna-se necessário compreendê-la de acordo com os fins a que se propõe. São esses fins que servem para classificarmos os tipos de virtude:
- Quando o fim da ação é a realização da máxima felicidade. Sendo que o próprio do homem é o logos, sua felicidade só pode estar no exercício da atividade intelectual em sua forma mais refinada. Então, as virtudes que dizem respeito a este exercício são “dianoéticas” ou “intelectivas”. Elas se classificam progressivamente, de acordo com o grau de sua intelectualidade e decorrente possibilidade de felicidade:
- Arte (techne) a capacidade de produzir objetos.
- Prudência (phronesis) a capacidade de agir convenientemente.
- Ciência (episteme) a capacidade de demonstrar as coisas necessárias.
- Inteligência (nous) a capacidade de compreender os primeiros princípios, que estão antes de toda ciência particular.
- Sabedoria (Sophia) o mais alto grau da ciência e consiste em demonstrar o necessário, compreender os princípios e julgar a verdade dos princípios.

alegoria da sabedoria - Dossi, Dosso
- Quando o fim da ação implica a necessidade de um domínio do intelecto sobre os impulsos sensíveis, determinando os bons costumes, isto é, quando a virtude dianoética da prudência tem que ser convocada para orientar o comportamento prático requerido no momento. Neste caso, as virtudes que têm que ser desenvolvidas sob a influência da prudência são “éticas” ou “práxicas”, porque elas decorrem da “disposição” (hexis) de escolher o justo meio-termo (mesótes) entre dois extremos: o excesso e a falta ou carência.
| Afeto | Falta | Justo meio-termo | Excesso |
| Medo | temeridade | coragem | Covardia |
| Cólera | indiferença | calma | Ira |
| Falar sobre si mesmo | falsa modéstia | veracidade | Juactância |
| Vergonha | despudor | modéstia | timidez |
Aristóteles toma os conceitos de bem humano e fraqueza da vontade (akrasia), além dos desejos e sentimentos que levam uma pessoa a refletir sobre sua vida como um todo, como elementos que precisam ser levados em conta na educação capaz de motivar para as mudanças necessárias às várias etapas do desenvolvimento moral. Essa aprendizagem supõe que se vá adquirindo um saber agir em cada situação, levando em conta os seguintes elementos de conveniência: a pessoa certa, a medida certa, o motivo justo, a maneira adequada. Dominando pela prática constante as diferentes situações, o aprendiz moral avançaria, assim, por estágios até o completo desenvolvimento da prudência, que é o estado virtuoso em que o homem alcançou a verdade no campo do que é bom e mau para ele e para os outros.
A prudência assim desenvolvida leva à compreensão de por que o bem (e não o mal ou a injustiça) é o que deve ser buscado como fim último de todas as ações. A prudência exerce uma função central na ética aristotélica, pois sua competência básica é realizar a mediação entre o logos, o que se refere ao “natural” e ao “incondicionado”, e o ethos, o que se refere ao “humano” na existência humana.

alegoria da prudência - Aachen, Jans Bon
Assim, o “homem” é explicado pela “capacidade” (determinação natural) que possui de “contemplar a verdade” (sabedoria). Nesse sentido, também para Aristóteles, como para os gregos de modo geral, a vontade humana permanece limitada por parâmetros impostos pelo próprio logos. O humano no pode ser díspar da natureza e a vida social deve refletir essa harmonia. É por isso que a principal dentre as virtudes éticas é a justiça. Ela não é uma virtude particular, mas a virtude total e perfeita. O homem justo é o que respeita todas as leis e é o homem completamente virtuoso. Para Aristóteles, a justiça quando considerada individualmente e quando considerada socialmente são apenas dois lados da mesma moeda: enquanto a política mostra os princípios constitutivos do Estado bom, a ética expõe a forma da vida boa nesse Estado bom. O Estado virtuoso é aquele cuja legislação é justa. E a virtude de um Estado decorre da virtude dos seus cidadãos.
Na medida em que o homem necessita viver no mundo real e social, a prudência e a amizade são aquilo que ele mais necessita. No entanto, não há nenhuma atividade que possa fazer o homem mais feliz do que aquela em que ele não necessita de mais ninguém; aquela que lhe é mais própria em virtude do que ele é. Há somente uma nessas condições: a sabedoria. Assim, a vida teorética é superior à vida social; a vida do sábio é feita de serenidade e de paz e sua felicidade está na própria atividade de sua inteligência.





