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O conceito de jogo

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer

 

 

O conceito de jogo, enquanto fio condutor da explicação ontológica, apresenta, em Gadamer, uma oposição radical ao significado subjetivo que o conceito apresenta em Kant e em Schiller. Nesse sentido, Gadamer afirma que devemos “libertar esse conceito do significado subjetivo”. Parece já desde o início que se trata de construir com clareza a base sobre a qual devera ser feita a abordagem do conceito, tratando de demarcar o emaranhado dos pré-conceitos que devem ser tratados com a máxima atenção.

Ainda que a razão não ocupe mais o lugar único, como pretendia o iluminismo, ela nao é “despedida“. Nesse sentido, o conceito de jogo, conforme exposto na obra Verdade e Método de Gadamer, nos ajudará a compreender melhor a subjetividade não mais como instância determinante em relação à compreensão. Ela mesma deverá entrar em um novo jogo sem, no entanto, deixar de existir.

O conceito de jogo é tomado por Gadamer como modelo estrutural para explicar o fenômeno da compreensão; ele nos abre espaços para a aproximação inicial e a posterior compreensão do processo ontológico enquanto situação insuperável por parte dos parceiros entregues ao movimento lúdico.

 

Gadamer

Gadamer

Origens do jogo no mito e no culto

Gadamer busca na obra Homo Ludens, de Huizinga, seguir a pista e detectar o momento lúdico, que é inerente a toda cultura, elaborando a correlação do jogo infantil e animal com os “jogos sagrados” do culto. O jogo nasce na área do culto, que, por sua vez, acontece num espaço onde se reconhece de antemão uma autoridade superior, por parte daqueles que praticam o culto. Para Huizinga, é no mito e no culto que se originam as grandes forças instintivas da civilização humana, a saber, “o direito e a ordem, o comercio e o lucro, a industria e a arte, a poesia, a sabedoria e a ciência. Todas elas têm suas raízes no solo primitivo do jogo“.

Na mesma linha de raciocínio, afirma: “O homem primitivo procura, através do mito, dar conta do mundo dos fenômenos atribuindo a este um fundamento divino. Em todas as atitudes caprichosas da mitologia, há um espírito fantasista que joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade“.

Os sacrifícios, ritos sagrados, consagrações e mistérios das sociedades primitivas são destinados a assegurarem a tranqüilidade do mundo, dentro de um espírito de puro jogo. Isso pode ser visto, por exemplo, nos desenhos feitos ao fundo das cavernas, cuja finalidade, ao que tudo indica, ligava-se a uma tentativa de iniciar um ritual de caça, abrindo um espaço próprio para se experimentar uma espécie de acesso a um inicio do jogo. A experiência que ali se dava ultrapassando o conhecimento racional e qualquer tentativa de antecipar o sucesso ou o fracasso do caçador em relação à caça, ao mesmo tempo em que fascina, também assusta.

Percebe-se que tal efeito vai no sentido de apontar uma tentativa para além de si mesmo, entrando na mística do fascínio que o jogo exerce sobre eles, sem nenhuma possibilidade de prever coisa alguma. Os participantes correm o risco de terem suas expectativas confirmadas ou não sem, no entanto, ser possível antecipar coisa algurna.

Gadamer, referindo-se a Huizinga diz que “isso o levou a reconhecer na consciência lúdica essa peculiar falta de decisão que torna praticamente impossível distinguir nela o crer do não crer”, conforme a citação que ele mesmo faz, extraída do texto de Huizinga:

 “o selvagem nada sabe das distinções conceptuais entre ‘ser’ e ‘jogo’, nada sabe sobre ‘identidade’, ‘imagem’ ou ‘símbolo’. Portanto, continua em aberto a questão de saber se a melhor maneira de apreender o estado de espírito do selvagem no momento em que celebra seus rituais não será o recurso à noção primaria e universalmente compreensível de ‘jogo’. Em nossa concepção do jogo desaparece a distinção entre a ‘crença’ e o ‘faz de conta’“.

Podemos ampliar a discussão, se tomarmos o fato do culto, o qual, no caso, consegue reunir uma comunidade que participa da representação. Segundo Gadamer, “o jogo cultual e o jogo teatral não representam evidentemente do mesmo modo e no mesmo sentido que representa a criança que joga. Não se esgotam naquilo que representam, mas aludem para além de si mesmos, para aqueles que participam como espectadores“.

O envolvimento da comunidade em torno de “algo” representado não é o representante que o determina. Ele próprio segue determinadas regras, bem como poderíamos dizer que, no caso do culto, há um “jeito próprio” de se conduzir, a fim de cumprir com seu papel frente à representação. Portanto, o representante não detém em mãos o domínio sobre esse “algo“. “Algo acontece” no culto, assim como nos jogos esportivos, que foge à sua possibilidade de dominação.

Um exemplo disso pode ser percebido em determinados ritos que acontecem no culto, como é o caso de uma encenação da Paixão e Marte de Jesus Cristo. O espectador, que acompanha a cena, não enxerga mais a pessoa que está representando, mesmo que a conheça pessoalmente. Entretanto, o objetivo da encenação não visa em primeiro lugar aos espectadores, mas a si mesma enquanto manifestação e aproximação do mistério da fé. O espectador se encontra envolvido de tal maneira, que é capaz de experienciar um conjunto de sentido próprio daquele evento.

Aqui como que desaparece o jogador (ator), sendo que há, sobretudo, uma gradativa anulação da diferença entre os envolvidos, ator e espectador. O foco central vai se firmando em torno da “encenação mesma”, ela como que assume uma auto-produtividade, vai se desenrolando em seu espaço, na medida em que os envolvidos se permitem entregar-se à situação. O conteúdo de sentido é igual, tanto para os atores quando para os espectadores, sendo que estes possuem uma primazia metodológica frente aos atores. No entanto, isso não impossibilita que ambos se tomem igualmente participantes no efetuar-se da encenação.

Percebemos que a experiência do espectador, na verdade, é uma forma de participação no próprio jogo. Em outras palavras, a encenação proporciona uma experiência maior, na medida em que o espectador “mergulha” nela, entregando-se completamente ao movimento do jogo. Logo, percebemos que se cria um espaço próprio, pois já não é mais o dia-a-dia que está ali, mas, evidentemente, um espaço que, naquele momento, em si mesmo manifesta um conjunto de sentido. A esse respeito, Huizinga é preciso, ao afirmar:

 

Gadamer

Gadamer

Uma das características mais marcantes do jogo é sua separação espacial em relação à vida quotidiana. É-lhe reservado, quer material ou idealmente, um espaço fechado, isolado do ambiente quotidiano, e é dentro desse espaço que o jogo se processa e que suas regras têm validade. Ora, a delimitação de um lugar sagrado é também a característica primordial de todo ato de culto”.

 Isso também pode ser claramente percebido nas procissões, que exigem, por assim dizer, a presença do espectador dentro de um espaço próprio. Não há procissão sem espectador, de modo que não há também um modelo de procissão capaz de ser tomado como o mais cúltico. Talvez nisso repouse também a necessidade de haver uma inculturação, vindo a surgir inúmeros tipos de procissão, cada qual com características diferentes. Olhando a história do Brasil, uma pista disso pode ser encontrada, por exemplo, junto às procissões de Nossa Senhora, ou então, nos cultos afro-brasileiros. Quem participa da procissão ou culto, está sendo absorvido pelo conjunto do espetáculo.

 Há uma manifestação de um conjunto de sentido, o que, em linguagem cristã, poderia ser traduzido como “comunhão“, no sentido de estar em “comum união“, numa sintonia tão profunda com relação ao acontecimento, possibilitando falar-se em “uno“. O espectador “realiza o que é o jogo como tal“, a saber, “ele, é não o jogador (ator), para quem e em quem se joga (representa) o jogo“. Isso tudo, porque há um sentido do conjunto do espetáculo a ser absorvido, não significando que o jogador (ator) esteja impossibilitado de experimentá-lo; porém, o espectador possui uma primazia metodológica. Conforme Gadamer, “pelo fato de o jogo ser realizado para ele, torna-se patente que possui um conteúdo de sentido que deve ser entendido, podendo por isso ser separado do comportamento do jogador (ator)“. O sentido não está submisso a uma base racional. O culto, assim como o jogo, remonta a uma origem “pré-racional“.

 Tanto o jogo quanto o culto mantêm sua autonomia frente à subjetividade. Quem quer dominá-los, acaba como que sendo excluído do acesso ao espaço onde eles se efetuam. Quem assume o risco e se entrega, através da experiência de se deixar levar, se torna participante. Percebemos que o jogo, assim como o culto, não se efetua sem o participante, porém, em momento algum, pode-se atribuir a existência do jogo ao participante. Ele simplesmente joga, permitindo que o jogo se desenrole em si mesmo, ou seja, em seu ser jogado.

 O jogo como tal é imprevisível. Todos com certeza temos de alguma maneira, uma experiência do que acontece, por exemplo, quando numa partida de futebol alguém busca dominar individualmente o jogo. Surge uma situação em que esse alguém quer ser a “estrela” a brilhar para os espectadores. Perde-se o conjunto e, com isso, todos os membros da equipe “justamente ao se transformarem numa competição de espetáculo correm o risco de perder seu verdadeiro caráter lúdico como competição“.

Predominam, nesse caso, tentativas individuais, perdendo-se a perspectiva de conjunto. Nessa situação aqueles jogadores, que assim jogam, estão preocupados em convencer o espectador de que são “estrelas” capazes de, individualmente, proporcionar-lhes o espetáculo, dominando o jogo. É bem verdade que pode haver verdadeiros craques em campo: ninguém o nega. Porém, infelizmente, o que acontece é que, quando os jogadores buscam determinar o jogo à base de suas habilidades individuais, perdem a perspectiva do próprio jogo. No caso do futebol, esta se efetiva melhor, quanto melhor o conjunto da equipe conseguir um espírito de grupo.

Gadamer faz questão de deixar claro que, para que o jogo aconteça, “é mais importante o fato de que no jogar se dá uma seriedade própria, até mesmo sagrada“. Isso porque o jogo tem que ser jogado. Só no ser jogado ele existe. Ele precisa de um espaço próprio. “Aquele que joga sabe por si mesmo que o jogo é nada mais que um jogo, e que se encontra num mundo que é determinado pela seriedade dos fins“. O jogo se efetua ao ser jogado, seguindo as próprias regras do jogo, conforme veremos a seguir.

 

Johan Huizinga

Johan Huizinga

Características estruturais do jogo

 Há no jogo regras especificas que exigem respeito a elas, por parte dos jogadores. Os jogadores se expõem ao risco de chegar a algum resultado ou não, isto e, é-lhes impossibilitado prever o resultado. “Não é a referencia que, a partir do jogo, de dentro para fora, aponta para a seriedade; é só a seriedade que há no jogo que permite que o jogo seja inteiramente um jogo“.

O jogo exige a predisposição de quem vai entrar nele e o conhecimento de suas regras, conforme veremos adiante, sem, no entanto, haver a possibilidade de prever qualquer resultado enquanto ele esta se efetivando. Dai a necessidade de chegar a uma perspectiva interna a ele e abandonar-se totalmente em tal espaço, assumindo como condição o risco de obter o resultado desejado ou não. “O atrativo que o jogo exerce sobre o jogador reside exatamente nesse risco. Desfrutamos assim de uma liberdade de decisão que esta correndo riscos e esta sendo inapelavelmente restringida“.

Em principio, percebemos aqui o primado do jogo face à consciencia do jogador. O horizonte temático não pode ser limitado, nem dominado pela subjetividade. O que lhe é possibilitado é decidir sobre este ou aquele jogo. Segundo Huizinga, “trata-se de uma realidade que ultrapassa a esfera da vida humana. Portanto, seu fundamento não reside na subjetividade, pois, se assim fosse, limitar-se-ia à humanidade“.

Outro fator de destaque é que a auto-produtividade, o movimento de vaivém do próprio jogo, além de seduzir e cativar leva a uma expectativa, por parte dos envolvidos. No principio, eles estão impossibilitados de se posicionarem frente a qualquer tentativa de dominá-lo. Eles simplesmente podem jogar, evidentemente, dentro das regras do próprio Jogo.

O ser surpreendido significa irritar-se, devido à perda do lugar por ele (jogador) anteriormente dominado. Não é possibilitado ao jogador dominar esse espaço. É como que admitir de antemão que algo se dá no jogo, sobre o que a subjetividade não tem o controle. “É o jogo que mantém o jogador a caminho, que o enreda no jogo, e que o mantém nele“.  Cabe ao jogador manter a abertura para o jogo, seguindo suas regras.

A tensão surge na relação entre o interior do jogo e o ambiente em que esta sendo jogado. Uma vez participando dele, estamos submissos às suas regras. Portanto, é condição, para que o jogo se efetive como tal, que não sejam burladas suas regras, o que seria a tentativa de dominar o próprio jogo. Resulta, dessa tentativa, a famosa expressão popular: “Ele escondeu as cartas na manga“, isto é, fraudou o jogo, inserindo nele uma perspectiva que não era a da efetivação do próprio jogo, mas veio de fora, com o intuito de vencer.

Parece que o jogo não tem um sujeito capaz de dominá-lo. “… o verdadeiro sujeito do jogo não é o jogador, mas o próprio jogo”. O jogo se joga, e ponto final Os jogadores estão quase que absorvidos, isto é, participam enquanto contribuintes da possibilidade do jogo. É possível percebermos isso, ao buscarmos saber algo sobre determinado jogo em andamento. A primeira pergunta que normalmente se ouve é mais ou menos esta: “A quanto está o jogo?” Percebemos, aqui, que a pergunta refere-se ao jogo propriamente dito, em andamento no caso. Nunca, ou quase nunca, num primeiro momento, alguém costuma perguntar como os jogadores estão em seu domínio do jogo, ou algo assim. Há aí, reconhecida, uma autonomia.

 Outro fato que pode ser destacado é a total impossibilidade de anteciparmos qualquer resultado e a necessidade de levar o jogo a serio. Segundo Gadamer: “Quem não leva a serio o jogo é um desmancha-prazeres. O modo de ser do jogo não permite que quem joga se comporte em relação ao jogo como se fosse um objeto. Aquele que joga sabe muito bem o que é o jogo e que o que esta fazendo é ‘apenas um jogo’, mas não sabe o que ele ‘sabe’ nisso“.

Qualquer tentativa de dominá-lo implica em não lhe reconhecer as regras intrínsecas. Pode-se, sim, falar que é dever de quem entra no jogo ter um certo ou total domínio (no sentido de conhecimento) das regras, a fim de possibilitar que a jogada flua com naturalidade. O que não é possível é querer jogar, determinando as regras a base de critérios subjetivos, portanto, que venham confirmar expectativas, por parte de quem as está formulando, a fim de não perder o domínio sobre o jogo.

 Huizinga a esse respeito destaca que “todo jogo tem suas regras. São estas que determinam aquilo que ‘vale’ dentro do mundo temporário por ele circunscrito. As regras de todos os jogos são absolutas e não permitem discussão“. Podemos percebê-lo num caso bem simples, se analisarmos um jogo de baralho, por exemplo, a canastra.  Existem diferentes tipos de canastra; porém, cada um com suas regras próprias. Ao optarem por um tipo de jogo, os jogadores, antes de o iniciarem, podem tirar dúvidas sobre tais regras, para evitar confusões. Uma vez esc1arecidas as regras, combinado ate quanto vai o jogo, em momento algum se discute sobre as regras. Simplesmente se aplicam, e ponto final. O cumprimento das regras acaba tornando o jogo mais atrativo, sem a possibilidade de manipulação por alguns dos parceiros. Ao pegarem as cartas na mão, eles estão como que entregues ao próprio jogo, em igualdade de condições.

Lançados à própria auto-produtividade do jogo, sem nenhuma certeza de que dali vai resultar alguma jogada com resultado positivo, resta-lhes jogar e entregar-se completamente à situação. Não há certeza alguma em se efetuar uma jogada. Há, sim, uma expectativa, a crença e o risco de que essa se confirme, sem, no entanto, ser possível dominar a situação, no sentido de manter qualquer tipo de domínio sobre o jogo, ou o espaço em que ele esta se efetivando. É possibilitado ao jogador, segundo as regras, mover-se dentro do espaço do próprio jogo, através da jogada que lhe é possível ser feita. A total imprevisibilidade ou antecipação de um resultado torna o jogo fascinante.

Se, no entanto, alguém tentar abrir o jogo, e convencer seus parceiros a fazerem o mesmo, mostrando as cartas que estão na mão, o jogo se tornará “in-jogável“. Alguém poderia argumentar, dizendo que dessa forma o jogo se tornaria transparente. De fato, torna-se transparente, mas nesse caso já não se trata mais de um jogo, e sim da reflexão e/ou análise racional do jogo. O jogo acontece necessariamente num espaço pré-reflexivo. No momento em que alguém, como participante o abre, para calcular de antemão todas as formas de jogo, o tornará “in-jogável”.

A expressão “vamos abrir o jogo” tem dois significados: significa “desocultamento” ou então uma tentativa de tornar o jogo transparente. Ocultamento não tem aqui o sentido de esconder, mas como algo ao qual os participantes não tem acesso. Ao querer abrir o jogo, nós estamos num nível de reflexão sobre ele. Não jogamos mais, queremos ver o resultado. A antecipação do resultado remete à idéia de fim do jogo.

Ao tornarmos o jogo transparente, parece que se está acabando com o elemento surpresa, característico da manifestação do movimento próprio do jogo, no desenrolar de sua auto-produtividade. Isso pode também ser aplicado às relações intersubjetivas. Num primeiro momento, nos parece que aquele que mantém o jogo fechado possui o domínio sobre o outro. Essa idéia remete a uma expectativa de que a subjetividade detenha o potencial de dominar a situação. No entanto, percebemos que, ao se tratar de um jogo, é completamente imprevisível antever qualquer resultado. Sendo assim, a idéia de abrir o jogo, para que alguém perca o domínio sobre a situação, no contexto sobre o qual estamos refletindo, se fosse aceitável, impossibilitaria expressões do tipo “o jogo do amor“, “o jogo do poder“, e assim por diante. Ao que se percebe, mesmo nas relações intersubjetivas, quando alguém diz “vamos abrir o jogo”, está reconhecendo o elemento de imprevisibilidade.

 Ambos os parceiros do jogo estão como que envolvidos numa situação em que um não sabe o que o outro sabe, sendo que ambos não sabem o que se sabe a respeito disso. Frente à imprevisibilidade e busca de segurança, abrir o jogo assume um caráter de reflexividade sobre a situação, na perspectiva de buscar a total transparência ou, então, buscar saber o que não se sabe disso.

Entretanto, o fato de um dos parceiros manter o jogo fechado, não significa necessariamente o domínio da situação ou, sobre o outro. O domínio sobre o outro não pode ser denominado como um elemento constitutivo da relação intersubjetiva. A relação intersubjetiva, bem o sabemos, “pressupõe” uma relação de igualdade, de alteridade e de respeito ao outro. Não é possível dizer que ao dominar o jogo, ou então o parceiro, está-se mantendo o jogo.

 Portanto, a expressão “abrir o jogo” deveria ser entendida no sentido de abandonar o espaço pré-reflexivo e assumir o risco de torná-lo reflexivo, sabendo de antemão que significa também interromper o movimento fascinante do próprio Jogo e, conseqüentemente, aceitar a possibilidade de não mais poder jogar com o parceiro dentro daquele espaço.

 

homo-ludens

homo-ludens

Elementos da estrutura ontológica do compreender enquanto processo.

Até aqui tentamos demonstrar que a estrutura pré-reflexiva ontológica torna-se a condição para a reflexão. A perspectiva da hermenêutica não quer fugir da racionalidade, mas mostrar que a estrutura encontra-se na situação pré-reflexiva.  O elemento fundador da racionalidade é, portanto, a estrutura pré-reflexiva.

O intento de Gadamer é tomar o jogo como modelo estrutural para a explicação da compreensão, e não enquanto identidade do conteúdo; não é tanto o processo metodo1ógico, mas muito mais o processo ontológico de compreensão, enquanto situação insuperável por parte dos parceiros entregues ao jogo.

O processo de compreensão, conforme veremos adiante, exige um certo se entregar à situação, de modo semelhante ao que acontece no jogo. O jogo só deveria ser tornado como modelo estrutural para explicar o porquê do processo de estruturação. Nos mesmos estamos nos encontrando como parceiros do processo de compreensão, na medida em que nos deixamos envolver, levar pelo jogo dentro de um espaço próprio. Isso pode ser claramente percebido, por exemplo, na utilização do jogo como meio terapêutico na ludoterapia.

Acontece que na ludoterapia, através do jogo, torna-se possível superar a distancia. No caso, possibilita-se a superação da distância entre nos e o que fazemos, pois o jogo, por assim dizer, somos nós mesmos. Ele possibilita uma forma de expressão não deformada pelo processo de reflexão. Nesse contexto, perdem-se as regras de distanciamento, principalmente por deixar de lado os elementos normativos que qualificam a “normalidade” dentro da qual o paciente está com problemas. Dessa forma, dentro de determinado espaço, o paciente pode se libertar dos condicionamentos normativos que o escravizam. Huizinga parece expressar bem isso, ao dizer:

 “Desde a mais tenra infância, o encanto do jogo é reforçado por se fazer dele um segredo. Isto e, para nós, e não para os outros o que os outros fazem ‘lá fora’, é coisa de momento e não nos importa. Dentro do círculo do jogo, as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. Somos diferentes e fazemos coisas diferentes”.

Como a realidade do dia-a-dia como tal não é possível ser tomada, na ludoterapia o jogo providencia tal espaço. Exige-se do jogador, por outro lado, um determinado comportamento conforme as regras do jogo. Ao se entregar ao jogo, abre-se um espaço que não é aquele no qual o paciente se encontra sob os condicionamentos do dia-a-dia. Alí, ele pode entregar-se à situação e experimentar outro tipo de possibilidade de comportamento, sem ser ameaçado pelas conseqüências.

Ao que se percebe, no jogo possibilita-se uma quebra da hierarquia estabelecida pelos condicionamentos do dia-a-dia. Parece que ele desempenha um papel de auto-atração. Lança sobre nós um feitiço, tornando-se fascinante, cativante, impossibilitando o domínio por parte de alguém. Ele tem existência própria, uma “natureza própria“, ou seja, “o sujeito do jogo não são os jogadores. Ele simplesmente ganha representação através dos que jogam o jogo“. Nele toda postura dominadora fica de lado. Percebemos aqui que, nesse sentido, a hermenêutica, em última instância, se tornara uma critica radical à tradição da racionalidade. O jogo exerce um fascinio sobre nós e, aparentemente, também nos submete, não se sabe a quem.

O próprio jogo assume o lugar antes dominado pela subjetividade. Porém, para ser jogado ele sempre exige a participação dos parceiros que o executam, os quais não se podem desfazer de sua subjetividade.

A subjetividade nunca desaparece, mas permanece como que em concordância com as regras do jogo e ajudando “algo” até então desconhecido a se desabrochar em si mesmo no jogador. “A leveza do jogo, que não precisa necessariamente significar uma real falta de esforço, aludindo apenas para o fenômeno da ausência de tensão (Angestrengtheit), será experimentada subjetivamente como um alivio“. O movimento, o vai-vem pertence tão essencialmente ao jogo que, em último sentido, faz com que de forma alguma haja um jogar-para-si-somente. É necessário e condição, para que seja um jogo, que haja alguém ou algo com o qual o jogador jogue, de modo a ele ter um contra-lance ao lance dado, mesmo que não seja tal uma pessoa.

O jogo só cria uma situação favorável devido à possibilidade de o jogador se colocar a si mesmo em risco. Posso me auto-experimentar no jogo, ele me dá a possibilidade de um comportamento que normalmente não devo ter. Ao jogar, se experimentam diferentes papeis sociais. De certo modo, é um processo reflexivo, mas não no sentido teórico nem epistemológico. É como experimentar a participação numa “quase-reflexividade” ontológica, talvez podendo ser mais bem compreendida com o conceito “pró-flexão” .

Essa “pró-flexao” se torna possível, na medida em que o indivíduo se entrega ao próprio espaço do jogo. É ali que ele poderá fazer tal experiência enquanto experimentação de si mesmo, sem ser perturbado pelos condicionamentos do dia-a-dia. É aquela idéia de que algo, enquanto algo se revela, adquire sentido, à proporção que seu sentido é, por assim dizer, de certo modo compreendido por aquele que esta fazendo a experiência.

A mesma estrutura encontramo-la na analogia da ficcionalidade interna da obra de arte. Percebe-se aí uma certa experiência da produção de um espaço próprio da obra de arte, onde “o ‘sujeito’ da experiência da arte, o que fica e permanece, não é a subjetividade de quem a experimenta, mas a própria obra de arte“. Enquanto tal é marcada uma diferença clara do nosso acesso direto à obra, via reflexão, e o acesso direto, via ontologia.

O jogo deveria lançar uma luz para a própria experiência estética. O modo de ser da obra de arte é intimamente vinculado ao seu ser experimentado, no sentido de experienciado, e não à análise do modo objetivo. Nessa linha de raciocínio, Gadamer dirá que o jogo:

“Tem uma natureza própria, independente da consciência daqueles que jogam. O jogo encontra-se também lá, sim, propriamente lá, onde nenhum ser-para-si da subjetividade limita o horizonte temático e onde não existem sujeitos que se comportam ludicamente”.

O jogo marca um horizonte para além daquele dos participantes. Apesar de o jogo acontecer, devido à participação ativa dos seus envolvidos, o ato de jogar não deve ser entendido como um mero desempenho de uma atividade. Conforme Gadamer, “…para a linguagem, é obvio que o verdadeiro sujeito do jogo não é a subjetividade daquele que entre outras atividades também joga, mas o próprio jogo“.

Já dissemos, anteriormente, que o sujeito do jogo não é o jogador, porém, através dele, o jogo simplesmente ganha sua representação. No jogar “0 movimento que é jogo não possui nenhum alvo em que termine, mas renova-se em constante repetição. O movimento de vaivém é obviamente tão central para a determinação da essência do jogo que chega a ser indiferente quem ou o que executa esse movimento. O movimento do jogo como tal também é desprovido de substrato. É o jogo que é jogado ou que se desenrola como jogo; não há um sujeito fixo que esteja jogando ali. O jogo é a realização do movimento como tal“. É, pois, o próprio jogo que mantém o jogador a caminho, que o enreda no jogo.

Gadamer

Gadamer

Aplicação das estruturas do jogo ao processo de compreensão

Tal estrutura Gadamer irá aplicar na área do conhecimento, da compreensão. Há “algo” que se manifesta, um conjunto de sentido que, na hermenêutica, não depende mais de uma subjetividade que impõe sobre o objeto o que ela busca conhecer. Em outras palavras, não é a subjetividade que arranca o sentido do objeto. Ao invés disso, na hermenêutica gadameriana, há uma relação de alteridade entre a subjetividade e o objeto, de modo que a subjetividade não desaparece. Há um processo pré-reflexivo que chega a ponto de quase se tornar a instância de autoridade que determina a reflexão.

Gadamer, nesse sentido, vai procurar defender a interpretação da arbitrariedade e das limitações que derivam de inconscientes hábitos mentais, “… Pois o que importa é manter a vista atenta à coisa através de todos os desvios a que se vê constantemente submetido o intérprete em virtude das idéias que lhe ocorrem. Quem quiser compreender um texto, realiza sempre um projetar“.

No caso em que alguém se dirige ao texto, ele nunca o faz como uma tabula rasa, pois “… Em principio, quem quer compreender um texto deve estar disposto a deixar que este lhe diga alguma coisa“. Aqui se faz referência clara à alteridade do texto.

Ao dirigirmo-nos ao texto, no intuito de torná-lo como objeto, introduzimos nele nossos próprios “pré-conceitos“, ou, melhor, somente se legitimam nossos “preconceitos“, nossa perspectiva. Resulta daí que não fazemos mais do que legitimar nossa pré-compreensão, nossas expectativas, perdendo de vista a “coisa mesma“.

“Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente deve, desde o principio, mostrar-se receptiva à alteridade do texto. Mas essa receptividade não pressupõe nem uma ‘neutralidade’ com relação à coisa nem tampouco uma anulação de si mesma; implica antes uma destacada apropriação das opiniões prévias e preconceitos pessoais. O que importa é dar-se conta dos próprios pressupostos, a fim de que o próprio texto possa apresentar-se em sua alteridade, podendo assim confrontar sua verdade com as opiniões prévias pessoais”.

A hermenêutica em Gadamer vai buscar demonstrar sua tarefa em defender o sentido racional do texto contra toda imposição vinda de fora:

A questão, portanto, não está em assegurar-se frente à tradição que faz ouvir sua voz a partir do texto, mas, ao contrário, trata-se de manter afastado tudo que possa impedir alguém de compreendê-la a partir da própria coisa em questão. São os preconceitos não percebidos os que, com seu domínio, nos tornam surdos para a coisa de que nos fala a tradição”.

Nesse sentido, semelhantemente ao jogo e ao culto, também aqui qualquer tentativa de dominar a compreensão é passível de confusões e equívocos.

Desse modo, quem quiser compreender, deve estar disposto a deixar que o texto mesmo lhe “diga” alguma coisa. O intérprete deve falar, para escutar o texto, ou seja, deve propor um “sentido” após o outro, num “sentido” melhor e mais adequado do que o outro, para que o texto apareça sempre mais em sua alteridade, como realmente é. São os “prejuizos“, de que não temos consciência, os que nos tornam surdos para a voz do texto.

Assim como no jogo, “algo” se dá a compreender, na medida em que aquele que quer compreender deve ser capaz de ouvir o outro, numa relação de alteridade, sem hierarquia, mas igualdade de condições, para com ele estabelecer um “diálogo(Gespräch). A idéia a que se chega efetuado o diátlogo, é um resultado de uma experiência ontologicamente determinada. Por enquanto, vamos nos limitar a ficar com essa idéia sob forma de tese.

Portanto, o sentido não é imposto ao texto. Essa é a diferença fundamental entre Gadamer e Heidegger. Em Gadamer, o texto é um outro concreto, com o qual eu estabeleço uma relação de alteridade, ao passo que, para Heidegger, ele é um objeto disponível, do qual disponho para me impor no mundo.

Gadamer não e claro, ao se referir à “coisa mesma“; ele não explicita o que é. Com base nas pistas que são dadas, no decorrer do texto, parece que ele está se referindo a uma espécie de núcleo central que é capaz de manter uma identidade consigo mesmo, não determinável por qualquer tentativa exterior. Nesse ponto, a instauração do sentido parece ficar mais clara. Conforme Gadamer “uma vez … apareça um primeiro sentido no texto, o intérprete pré-lineia um sentido do todo. Naturalmente que o sentido somente se manifesta porque quem lê o texto lê a partir de determinadas expectativas e na perspectiva de um sentido determinado”. A compreensão do que está posto no texto consiste precisamente na elaboração desse projeto prévio, que, obviamente, tem que ir sendo constantemente revisado com base no que se dá conforme se avança na penetração do sentido.

Aquele que se dirige a um texto, no intuito de interpretá-lo à base de sua pré-compreensão, apenas busca legitimar suas próprias idéias. Essa parece ser uma questão central, que faz com que “a coisa mesma” do texto não possa ser ignorada. Há, sem duvida, algo a que se tem acesso, que se abre à compreensão, sem que seja possível compreendê-lo em sua totalidade, mas enquanto “algo” dentro da totalidade de sentido que se manifesta.

Gadamer sabe muito bem que “a compreensão só alcança sua verdadeira possibilidade quando as opiniões prévias com as quais inicia não forem arbitrarias“, mas sabe também ser necessário que “o interprete não se dirija diretamente aos textos a partir da opinião prévia que lhe é própria, mas examine expressamente essas opiniões quanto à sua legitimação, ou seja, quanta à sua origem e validez“.

São as regras do jogo da compreensão que vão sendo travadas, e aos poucos vai se percebendo a necessidade de cumpri-las. Segundo Gadamer, “Diante de qualquer texto, nossa tarefa é não introduzir, direta e acriticamente, nossos próprios hábitos extraídos da linguagem (…). Ao contrario, reconhecemos que a nossa tarefa é alcançar a compreensão do texto somente a partir do hábito da linguagem da época e de seu autor”.

E logo depois, Gadamer acrescenta: “O que se exige é simplesmente a abertura para a opinião do outro ou para a opinião do texto. Mas essa abertura implica sempre colocar a opinião do outro em alguma relação com o conjunto das opiniões próprias, ou que a gente se ponha em certa relação com elas“. É a própria alteridade do texto que o exige, e “… Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente deve, desde o principio, mostrar-se receptiva à alteridade do texto”. Evidentemente, aqui não se trata de uma espécie de auto-cancelação da subjetividade, nem de negar a existência de “pré-juízos”; porém, essa questão está muito mais ligada a uma tentativa de entrar corretamente no círculo hermenêutico, seguindo suas regras.

Gadamer, nesse sentido, não nega a reflexão de Heidegger, ou seja, o texto de fato está-ai, disponível. Cabe ao intérprete dirigir-se a ele e buscar a interpretação. Porém, se o fizer conforme o espírito do racionalismo, o texto se fecha, ocorrendo somente, no máximo, a legitimação do que já era conhecido, ao serem introduzidas no texto as perspectivas que interessam ao intérprete.

Semelhante ao jogo, também na interpretação de um texto não está na subjetividade a capacidade de dominar a situação. Pelo contrario, exige-se um entregar-se à situação, a fim de avançar no processo de efetivação da instauração do sentido ou, em outras palavras, avançar no processo de penetração do sentido, enquanto resultado da experiência que o intérprete faz sem poder compreendê-lo em sua totalidade.

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer

 

A virada ontológica da hermenêutica no fio condutor da linguagem

Esta parte esta dedicada ao estudo da linguagem, e constitui o verdadeiro centro do discurso de Gadamer. Todos os elementos da experiência hermenêutica examinados são possíveis só em virtude da linguagem e na linguagem. O diálogo hermenêutico é possível graças a uma linguagem comum, que une texto e intérprete. Existe, assim, uma lingüisticidade essencial no compreender e na interpretação.

Segundo Gadamer, o que nos é transmitido na tradição por meio da linguagem, especialmente a linguagem escrita, possui, a respeito de qualquer outra forma de transmissão, uma situação de privilegio. O escrito tem a capacidade de transcender seu próprio tempo, tomando-se contemporâneo de qualquer presente. É, pois, diante dos textos escritos, onde se situa a autêntica tarefa hermenêutica.

Os textos escritos não querem ser compreendidos como expressões da subjetividade de seus autores, mas pelas mensagens de verdade que escondem. O que está fixado por escrito, liberou-se da contingência de seu autor.

A lingüisticidade do ato interpretativo introduz a Gadamer no problema da relação palavra-coisa, que aborda através de uma recuperação crítica do pensamento grego; e pensamento-linguagem, que aborda através de uma recuperação crítica do pensamento medieval. Gadamer afirma que não existe uma experiência sem palavras que depois se subordine à linguagem, porém a experiência humana está estruturada lingüisticamente; ainda mais: não há coisa onde não há linguagem. Não há. um conhecimento pré-lingüístico do mundo, não há experiência da realidade antes de expressá-la em palavras: falar e pensar, palavras e coisas constituem uma unidade indissolúvel.

A lingüisticidade do ato hermenêutico está enraizada na lingüisticidade mais geral da experiência humana do mundo: a linguagem é um fenômeno humano originário. Toda forma de comunidade humana é uma comunidade lingüística, entanto a linguagem se realiza através do diálogo, da comunicação, e o exercício do entender-se. A linguagem é algo absoluto que precede a tudo aquilo que é. O mundo é mundo enquanto se expressa na linguagem, e a linguagem existe enquanto nela se representa o mundo. Assim, a linguagem é a totalidade do eu e do mundo, o recíproco pertencer-se de ambos, o que a tradição metafísica entendeu como ser. De outro lado, os mundos históricos são distintos entre si e do mundo atual. Contudo, cada um é um mundo lingüístico, e por tanto acessível.

Em definitiva, Gadamer critica as teses tradicionais sobre a linguagem: esta não é um conjunto de signos que designam um mundo pré-lingüisticamente conhecido, nem é, tampouco, paralelamente à linguagem; aprender a falar é adquirir conhecimento do mundo. E a língua é uma estrutura que nos precede, e na qual nos encontramos desde sempre. Por tudo isso a linguagem nunca pode ser dada como objeto de experiência, porque toda afirmação cai dentro dela. Não há nenhum ponto de vista exterior à experiência lingüística do mundo. A pretendida objetividade da ciência cai, também, dentro da linguagem.

Nesta terceira parte, Gadamer trata do conceito da pertença e do caráter dialético e especulativo da linguagem, contrapondo a dialética hermenêutica à dialética absoluta de Hegel. Por pertença, entende uma doutrina que vê o conhecimento como um momento do próprio ser, e não como um fato do sujeito. Quer dizer, trata-se de uma situação na qual se dá um agir da coisa sobre o sujeito, mais do que uma ação do sujeito sobre a coisa. A pertença se identifica com a situação interpretativa, na qual a tradição ou o texto age sobre nós. A pertença tem a forma do ouvir, no sentido heideggeriano: aquele que é interpelado não pode ouvir aquilo que quer, como no caso do ver. Através do ouvir a palavra do passado chega ao presente, impondo-se ao sujeito.

 

Hegel

Hegel

Gadamer aprova a defesa de Hegel do método dialético. A dialética hermenêutica tem em comum com a hegeliana a especulatividade (speculum), como capacidade de refletir a totalidade de sentido de seu objeto. “Engatando num uso terminológico que pode ser demonstrado em Hegel, podemos chamar ao elemento comum entre a dialética metafísica e a hermenêutica de elemento especulativo. Especulativo significa, aqui, a relação do espelho. Espelhar-se é uma permuta continua. Porém a dialética do conceito se baseia em um saber infinito, enquanto que a hermenêutica implica a finitude e a historicidade do intérprete, e por isso, a finitude da tarefa interpretativa. Não obstante, essa finitude é em realidade uma infinita apertura, dado que a compreensão do verdadeiro sentido de um texto é uma tarefa que nunca se conclui. Em definitiva, o verdadeiro e decisivo termo de confronto da hermenêutica é Hegel: a finitude humana descarta todo ideal de saber absoluto. “O especulativo significa o contrario do dogmatismo da experiência cotidiana. É especulativo quem não se entrega direta e imediatamente à estabilidade disponível dos fenômenos ou ao que se tem em mente enquanto se mantém numa determinação fixa, mas que sabe refletir, ou, dito hegelianamente, que reconhece o ‘em si‘ como um ‘para mim’“.

No final de Verdade e Método, Gadamer sintetiza os pontos principais de sua ontologia hermenêutica, insistindo na ontologicidade e a universalidade da linguagem como ontologicidade e universalidade do fenômeno hermenêutico. Retoma a questão da correspondência entre pensamento e realidade, afirmando que o que garante a correspondência de sujeito e objeto, é a própria linguagem. “Pela cunhagem ontológica que recebe o nosso questionamento hermenêutico, acabamos nos aproximando de um conceito metafísico, cujo significado podemos tornar fecundo ao voltarmos as suas origens“.

 Finalmente, tenta uma síntese de seu pensamento à luz do conceito do belo, como noção ontológica de alcance universal: a experiência hermenêutica tem a mesma estrutura ontológica que a experiência do belo.

 

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer

 

 A liberação da questão da verdade a partir da experiência da arte.

 O fato de dedicar a primeira parte de sua obra à arte obedece aos seguintes motivos: Para Gadamer, a arte representa uma experiência extra-metódica de verdade. Em segundo lugar, a obra de arte coloca sempre problemas hermenêuticos. Finalmente, os conceitos empregados por Gadamer para descrever a experiência estética, são fundamentais, também, para descrever a estrutura da compreensão, da linguagem e da verdade.

 Gadamer critica a forma moderna de entender a arte como fato separado da vida total do homem, que nada tem a ver com as questões do verdadeiro e do falso. Privada de todo valor veritativo, a arte se afigura como um mundo de aparências oposto ao mundo do conhecimento e da ciência. O principal responsável da subjetivação da estética moderna é Kant. “O que Kant de sua parte legitimou e queria legitimar através de sua crítica do juízo estético era a universalidade subjetiva do gosto estético… A subjetivação radical implicada na refundamentação da estética de Kant marcou verdadeiramente uma época“.

 

Imanuel Kant

Imanuel Kant

Gadamer pretende manter o caráter veritativo da arte, e o principio de que a arte não é um sucesso onírico, mas uma experiência do mundo e no mundo, que modifica radicalmente a quem a faz. A arte é conhecimento, na experiência da arte há uma reivindicação de verdade diferente daquela da ciência e não subordinada a ela. Sob este pressuposto, Gadamer elabora uma ontologia da obra de arte, que mostra suas estruturas. Essa ontologia gira ao redor dos conceitos de: jogo, auto-representação, transformação, mímesis e representação.

 A estética nos introduz no coração da hermenêutica, já que nela se dá necessariamente o problema do encontro entre o mundo originário da obra, e o mundo do intérprete. O problema da interpretação da obra conduz ao problema geral da interpretação: como pensar o passado através de nossa situação presente. Seguindo a Hegel, Gadamer afirma que não se trata efetivamente de restituir o passado, senão da mediação, obrada pelo pensamento, com a vida do presente.

 Da extensão da questão da verdade à compreensão nas ciências do espírito

 Aqui Gadamer enfrenta diretamente o problema da compreensão, elaborando sua teoria específica da experiência hermenêutica. A seção se divide em duas partes:

 1. Preparação histórica: Gadamer oferece uma reconstrução histórica e crítica da hermenêutica romântica e historicista, que vai de Schleiermacher a Dilthey. Critica sua submissão ao método das ciências naturais e sua pretensão de objetividade, e mais fortemente seu descuido da historicidade do sujeito historiográfico, a des-historização do processo interpretativo (o passado é o objeto desta ciência, porém é interpretado desde um presente, e isso não é reconhecido pelos historicistas, que pretendem conferir à ciência histórica a capacidade de se transportar a cada época).

 

Martin Heidegger

Martin Heidegger

Gadamer reivindica um saber histórico consciente de sua própria historicidade e não só da alheia, remetendo-se neste ponto a Heidegger, que outorga ao compreender humano uma historicidade radical, através da pré-compreensão. “Compreender é o caráter ontológico original da própria vida humana” e ainda, todo compreender é um compreender-se. A compreensão se move em uma situação circular na qual aquilo que se deve compreender é já, de alguma maneira, compreendido.  Em virtude do círculo hermenêutico nada é dado como imediato, pois o indivíduo pertence originariamente ao passado, fato testemunhado pela existência de preconceitos e pressupostos.

 O círculo hermenêutico tem um alcance ontológico e por tanto, não eliminável, o que não é problemático: o problema reside, não em sair do círculo, mas no estar dentro de um modo adequado, adquirindo consciência de nossos prejuízos desconhecidos. Nossos preconceitos não são aquilo que nos afasta dos textos, senão pela (única via de acesso aos mesmos: só no iluminismo a noção de preconceito adquire o caráter pejorativo que lhe atribuímos. “Uma análise da historia do conceito mostra que é somente na Aufklärung que o conceito do preconceito recebeu o matiz negativo que agora possui”. Em quanto esboço antecipado de conceito, o preconceito não implica necessariamente um juízo falso. Assim, o preconceito constitutivo do iluminismo, é o preconceito contra os preconceitos.

 Essa rejeição dos preconceitos pressupõe o desconhecimento da finitude histórica do indivíduo, conseqüência do fato de que sua razão é razão real e histórica, que age num mundo histórico-social do qual sofre uma série de influencias. Muito antes de chegar à auto-compreensão, compreendemos segundo esquemas irreflexivos, de tal modo que nossos preconceitos constituem mais o nosso ser do que os nossos conceitos. “Se quisermos fazer justiça ao modo de ser finito e histórico do homem, é necessário levar a cabo uma reabilitação radical do conceito do preconceito e reconhecer que existem preconceitos legítimos“.

Gadamer e Habermas

Gadamer e Habermas

O iluminismo distingue duas classes de preconceitos: os procedentes do próprio individuo, e os que derivam da autoridade. Isto significa que autoridade e razão são mutuamente excludentes. A autoridade aparece como o oposto à razão, quando, segundo Gadamer, não tem porque ser assim. Por isso assinala a necessidade de reabilitar a autoridade e a tradição, para recuperar os prejuízos. Esta tese tem sido fortemente criticada por Apel e Habermas, que acusam a Gadamer de conservadorismo. De qualquer forma, a doutrina da tradição serve para demonstrar que o homem não pode chegar a estar livre de toda atadura com o passado, e que a tradição é um momento constitutivo da atitude historiográfica.

 2. Fundamentos para uma teoria da experiencia hermeneutica: A primeira das condições hermenêuticas é a pré-compreensão, que se determina em uma serie de preconceitos que testemunham de nossa pertença a uma tradição que liga intérprete e interpretado em um mesmo processo histórico, aproximando o texto do intérprete. Esta proximidade não exclui, não obstante, seu afastamento. Gadamer introduz assim a tese da simultânea proximidade e distancia do interpretado em relação ao intérprete.

 A distância temporal do texto em relação ao intérprete, não representa um obstáculo a ser derrubado, mas uma condição propicia ao compreender. O tempo é o único que serve de ponte entre dois mundos, pois está preenchido pela tradição. A distância temporal nos permite distinguir os preconceitos verdadeiros dos falsos. A adequada consciência hermenêutica é aquela que inclui uma consciência histórica. Esta tese e desenvolvida por Gadamer, através do que ele chama história dos efeitos ou historia efetual.

 O principio da história efetual” consiste em que o trabalho histórico de descrição de um acontecimento, sempre deve ter presentes todas as conseqüências desse acontecimento, para que seja captado no decorrer da história. Isso significa que a tarefa interpretativa tem lugar em um contexto de interpretações já dadas, que agem sobre o interprete. Assim, este se encontra desde sempre em algum tipo de relação com o objeto a interpretar, seu lugar se encontra de algum modo determinado pelo objeto, ainda antes de iniciar a tarefa de interpretação.

 À história dos efeitos, corresponde a consciência da determinação histórica, conceito que indica a determinação da historia sobre a consciência e, ao mesmo tempo, o conhecimento por parte da consciência dessa determinação. Trata-se, em definitiva, de uma consciência que é e sabe, exposta aos efeitos da historia. Ser histórico quer dizer não se esgotar nunca no saber-se.

Outro conceito fundamental é o da fusão dos horizontes: O horizonte é algo dentro do qual nós nos movimentamos e que se movimenta conosco. Ao contrário do historicismo, Gadamer sustenta que não há um horizonte em que esteja situado o intérprete, e outro para o qual se desloque, mas que existe um horizonte único. O deslocamento do intérprete a outra situação consiste em colocar-se a si próprio na situação do outro. Não obstante, Gadamer fala de fusão de horizontes, porque, mesmo que o horizonte seja único, existe uma alteridade entre o  intérprete e o interpretado. Alteridade que evita, de um lado, que a compreensão seja uma identificação ingênua, e do outro lado, que consista em uma mera explicitação de preconceitos.

Compreender, explicar, aplicar (= interpretar), representam os três momentos sucessivos do trabalho hermenêutico. O terceiro momento foi excluído no romantismo e, comporta a atualização do passado sobre o presente, sobre cada presente, isso faz da compreensão um processo infinito.

O problema hermenêutico se dividia como segue: distingue-se uma subtilitas intelligendi, compreensão, de uma subtilitas explicandi, a interpretação, e durante o pietismo se acrescentou como terceiro componente a subtilitas applicandi, a aplicação (…) Esses três momentos devem perfazer o modo de realização da compreensão.

A dialetica de pergunta e resposta tem sua base em Platão. Gadamer afirma que o saber é dialético, porque é a arte de sustentar um verdadeiro diálogo, a capacidade de produzir, para além das mentes individuais, verdades meta-subjetivas e comuns. A experiência hermenêutica é uma forma de diálogo, pois consiste em entrar em diálogo com o texto. A dialética de pergunta e resposta é, assim, a 1ógica concreta do trabalho hermenêutico. “Essa é a razão por que a dialética se concretiza na forma de perguntas e respostas, ou seja, todo saber acaba passando pela pergunta. Perguntar quer dizer colocar no aberto“. Aproximar-se de um texto é reconstruir a pergunta da qual ele é resposta, para além das intenções conscientes do autor. Esta reconstrução da pergunta originária implica perguntar sobre o texto, o que já é solicitado pelo texto mesmo. De modo que nossa pergunta sobre o texto, é a resposta à pergunta que o texto nos dirige. Assim, o interprete resulta ser o interrogado.

As perguntas do intérprete pretendem reconstruir a pergunta originária, da qual o texto seria a resposta. Porém, esta pergunta reconstruída não está mais dentro do horizonte originário, de modo que se tem produzido uma fusão de horizontes.

 

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer

Na cultura moderna e contemporânea, aumentou consideravelmente o problema hermenêutico. Porém, a própria hermenêutica contemporânea afirma que existir é interpretar. Em todas as épocas o homem sempre se encontrou com problemas interpretativos, com a necessidade de remeter determinados sinais a seus significados, e de construir uma metodologia que se ocupe dos sinais obscuros das mensagens humanas. Contudo, rigorosamente, a hermenêutica é uma disciplina que nasce na modernidade, e que só nos últimos séculos se organizou como disciplina autônoma.

 Hermenêutica vem do grego, ermeneia (sermo em latim), e indica a eficácia da expressão lingüística. No começo, a hermenêutica esteve unida à experiência de transmitir mensagens (Hermes, o mensageiro dos deuses), surgindo na Grécia sob a forma da arte dos poetas e os oráculos, porta-vozes dos deuses. Logo passou a significar interpretação de documentos, contudo, no mundo antigo não teve grande relevância filosófica.

 

Platão

Platão

Para Platão, a hermenêutica é uma pseudociência, que não transmite autêntica verdade e sabedoria. O De interpretacione de Aristóteles, mesmo desenvolvendo uma teoria do significado, não apresenta conexões diretas com o sentido específico do termo. Mais interessantes para a elaboração de uma pré-história da hermenêutica são as pesquisas dos filósofos alexandrinos sobre os sentidos de um escrito. Também apresentam um valor considerável os esforços dos Padres da Igreja na interpretação da Bíblia.

 A partir do Renascimento é que a hermenêutica começa a surgir como disciplina particular, mesmo que continue ligada à exegese dos textos sagrados. No século XVIII se produz o giro universalístico da hermenêutica, e esta passa a se ocupar, não só da Bíblia, mas de todo tipo de textos.

 

Schleiermacher

Schleiermacher

Schleiermacher, precursor da hermenêutica atual é quem identifica a interpretação com a compreensão de todo texto cujo sentido não seja evidente e constitua um problema, sublinhado por algum tipo de distancia que se impõe entre nos e o texto. Deste autor a hermenêutica atual também herda o principio de compreender o discurso tão bem ou melhor do que teria sido compreendido pelo próprio autor. No pensamento de Schleiermacher também encontramos:

 A idéia de um reenvio circular entre a parte e o todo.

A concepção da hermenêutica como reprodução criativa do passado.

A tese do caráter interpretativo implícito em todo saber histórico.

A linguagem como único pressuposto da hermenêutica.

 

Dilthey

Dilthey

Dilthey situa o âmbito da hermenêutica nos textos escritos. Reivindica para as ciências do espírito a mesma objetividade e universalidade que é dada as ciências naturais, assinala a necessidade da validade universal da interpretação.

 

Nietzsche

Nietzsche

Nietzsche expressará radicalmente o caráter interpretativo da existência humana e do mundo em geral, com sua negação de uma verdade absoluta.

Heidegger

Heidegger

Com Heidegger se passa de uma hermenêutica como problema epistemológico, a uma hermenêutica como problema ontológico. A interpretação e o desenvolvimento interior da compreensão, e o compreender é um modo de ser do Dasein, cujo ser-no-mundo está ligado desde sempre a uma compreensão. Gadamer é seu herdeiro mais representativo.

 

Gadamer, de formação humanística, estuda filosofia com os neokantianos. Conhece a Scheler, quem o conduz para a fenomenologia, e chega a tornar-se discípulo de Husserl e de Heidegger. Em sua obra Verdade e Método, através do dialogo com fi1ósofos como Dilthey, Husserl e Heidegger, se interroga criticamente sobre as modalidades do compreender. Seu programa de uma hermenêutica filosófica compreende os seguintes pontos:

 Sua pesquisa tem um caráter filosófico e não metodológico. “Na sua origem, o fenômeno hermenêutico não é, de forma alguma, um problema de método“. Não se trata de fixar as normas do processo interpretativo, mas de trazer à tona as estruturas transcendentais do compreender, quer dizer, esclarecer os modos de ser do fenômeno interpretativo. Gadamer se propõe suscitar o debate filosófico a respeito das condições de possibilidade da compreensão, responder à questão sobre como é possível o compreender.

 Gadamer tenta demonstrar que a hermenêutica se refere a algo que concerne à existência em sua totalidade, já que a compreensão é o modo de ser da existência como tal, e não uma de tantas possíveis atitudes do sujeito.

 A experiência do compreender é irredutível ao método do pensamento científico moderno, que busca um saber exato e objetivo, fruto da investigação de um objeto por um sujeito neutral, quer dizer, alheio a qualquer implicação existencial. “Compreender é interpretar textos não é um expediente reservado apenas à ciência, mas pertence claramente ao todo da experiência do homem no mundo“. Assim, o título de sua obra, apresenta uma relação de tensão entre seus dois termos: o método científico é insuficiente para explicar o compreender próprio das ciências do espírito. Diante das pretensões de universalidade da ciência, Gadamer acredita que pode demonstrar zonas de verdade fora da área científica, fundamentais para o homem. Obviamente essas zonas de verdade coincidem com as estruturas do compreender.

 A execução desse programa conduz Gadamer a se defrontar com o problema da linguagem, e a delinear uma ontologia lingüística capaz de fundamentar sua análise sobre o compreender e a verdade.

 Verdade e Método se divide em três partes:

23
nov

Hermenéutica

   Posted by: Héctor Hugo Palacio Tags: , , , , ,

Hans-Georg Gadamer

 Ha sido en el siglo XX cuando el lenguaje como medio de conocimiento ha pasado a ocupar el primer plano de la conciencia filosófica. Ciertamente, antes tambien existía filosofia del lenguaje, pero en pasadas épocas este era considerado como mero medio de expresión de pensamientos concebidos con independencia del lenguaje. Esta opinión fue variando al tiempo que se hacían evidentes las dificultades de la filosofía de la conciencia para describir la constitución de los objetos de la experiencia tan sólo como una doble relación entre sujeto y objeto. Se hizo progresivamente manifiesto que el conocimiento sólo puede acceder a un mundo compartido con otros y, por lo tanto, objetivo, si distintos observadores a través del medio de un lenguaje compartido se refieren a la misma realidad.

 Las dos grandes tradiciones filosófico-linguísticas de este siglo, que en general muestran un rechazo mutuo que no ha desaparecido y que sólo a finales de este siglo se han acercado un poco, se han orientado según tipos distintos de ciencia. Mientras que la hermenêutica se atribuyó la fundación de uma teoría científica de las ciencias humanas, la filosofía analítica se guiaba básicamente por el ideal de exactitud de las proposiciones científicas.

 

Friedrich Schleiermacher

Friedrich Schleiermacher

La hermeneutica es la teoría del comprender. Sus raíces son la interpretación teológica de las Sagradas Escrituras y encontró su forma filosófica en el pensamiento romántico de Friedrich Schleiermacher. Wilhelm Dilthey concluyó desde una perspectiva de la filosofia de la vida que el humanista que intenta comprender, a diferencia del científico que explica, debe situarse en el lugar de su objeto de investigación, las expresiones vitales históricas del ser humano, para poder comprenderlas en toda su amplitud.

 

Wilhelm Dilthey

Wilhelm Dilthey

Pero fue Hans-Georg Gadamer quien con su obra Verdad y metodo de 1960 unificó ambas tendencias, elevando la hermenéutica al rango de una disciplina básica de las ciencias humanas. Gadamer comparte con su maestro Heidegger el punto de partida filosófico. El ser humano está arrojado a un mundo del cual siempre tiene ya una precomprensión. Sólo desde el horizonte de lo siempre ya sabido puede el hombre apropiarse de lo extraño que le viene al encuentro continuamente. En el establecimiento de relaciones de comunicación con eso extraño se modifica su propio punto de vista, ampliándose su horizonte. Esto ocurre ejemplarmente en las ciências humanas, en especial en la interpretación de obras de arte en las que la fuerza del lenguaje, que nos da acceso al mundo, está concentrada, puesto que en el diálogo con la obra se disuelve el horizonte originario del ínterprete con el de la obra. En el llamado círculo hermenéutico se alcanza una más profunda comprensión de lo que había presupuesto en un princípio. Puesto que cada época tiene sus propias preguntas, este proceso de apropiación no finaliza nunca; las obras de arte, así como nuestra propia existencia, sólo las podemos comprender de otra manera, pero nunca definitivamente.

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