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O conceito de jogo

Hans-Georg Gadamer
O conceito de jogo, enquanto fio condutor da explicação ontológica, apresenta, em Gadamer, uma oposição radical ao significado subjetivo que o conceito apresenta em Kant e em Schiller. Nesse sentido, Gadamer afirma que devemos “libertar esse conceito do significado subjetivo”. Parece já desde o início que se trata de construir com clareza a base sobre a qual devera ser feita a abordagem do conceito, tratando de demarcar o emaranhado dos pré-conceitos que devem ser tratados com a máxima atenção.
Ainda que a razão não ocupe mais o lugar único, como pretendia o iluminismo, ela nao é “despedida“. Nesse sentido, o conceito de jogo, conforme exposto na obra Verdade e Método de Gadamer, nos ajudará a compreender melhor a subjetividade não mais como instância determinante em relação à compreensão. Ela mesma deverá entrar em um novo jogo sem, no entanto, deixar de existir.
O conceito de jogo é tomado por Gadamer como modelo estrutural para explicar o fenômeno da compreensão; ele nos abre espaços para a aproximação inicial e a posterior compreensão do processo ontológico enquanto situação insuperável por parte dos parceiros entregues ao movimento lúdico.

Gadamer
Origens do jogo no mito e no culto
Gadamer busca na obra Homo Ludens, de Huizinga, seguir a pista e detectar o momento lúdico, que é inerente a toda cultura, elaborando a correlação do jogo infantil e animal com os “jogos sagrados” do culto. O jogo nasce na área do culto, que, por sua vez, acontece num espaço onde se reconhece de antemão uma autoridade superior, por parte daqueles que praticam o culto. Para Huizinga, é no mito e no culto que se originam as grandes forças instintivas da civilização humana, a saber, “o direito e a ordem, o comercio e o lucro, a industria e a arte, a poesia, a sabedoria e a ciência. Todas elas têm suas raízes no solo primitivo do jogo“.
Na mesma linha de raciocínio, afirma: “O homem primitivo procura, através do mito, dar conta do mundo dos fenômenos atribuindo a este um fundamento divino. Em todas as atitudes caprichosas da mitologia, há um espírito fantasista que joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade“.
Os sacrifícios, ritos sagrados, consagrações e mistérios das sociedades primitivas são destinados a assegurarem a tranqüilidade do mundo, dentro de um espírito de puro jogo. Isso pode ser visto, por exemplo, nos desenhos feitos ao fundo das cavernas, cuja finalidade, ao que tudo indica, ligava-se a uma tentativa de iniciar um ritual de caça, abrindo um espaço próprio para se experimentar uma espécie de acesso a um inicio do jogo. A experiência que ali se dava ultrapassando o conhecimento racional e qualquer tentativa de antecipar o sucesso ou o fracasso do caçador em relação à caça, ao mesmo tempo em que fascina, também assusta.
Percebe-se que tal efeito vai no sentido de apontar uma tentativa para além de si mesmo, entrando na mística do fascínio que o jogo exerce sobre eles, sem nenhuma possibilidade de prever coisa alguma. Os participantes correm o risco de terem suas expectativas confirmadas ou não sem, no entanto, ser possível antecipar coisa algurna.
Gadamer, referindo-se a Huizinga diz que “isso o levou a reconhecer na consciência lúdica essa peculiar falta de decisão que torna praticamente impossível distinguir nela o crer do não crer”, conforme a citação que ele mesmo faz, extraída do texto de Huizinga:
“o selvagem nada sabe das distinções conceptuais entre ‘ser’ e ‘jogo’, nada sabe sobre ‘identidade’, ‘imagem’ ou ‘símbolo’. Portanto, continua em aberto a questão de saber se a melhor maneira de apreender o estado de espírito do selvagem no momento em que celebra seus rituais não será o recurso à noção primaria e universalmente compreensível de ‘jogo’. Em nossa concepção do jogo desaparece a distinção entre a ‘crença’ e o ‘faz de conta’“.
Podemos ampliar a discussão, se tomarmos o fato do culto, o qual, no caso, consegue reunir uma comunidade que participa da representação. Segundo Gadamer, “o jogo cultual e o jogo teatral não representam evidentemente do mesmo modo e no mesmo sentido que representa a criança que joga. Não se esgotam naquilo que representam, mas aludem para além de si mesmos, para aqueles que participam como espectadores“.
O envolvimento da comunidade em torno de “algo” representado não é o representante que o determina. Ele próprio segue determinadas regras, bem como poderíamos dizer que, no caso do culto, há um “jeito próprio” de se conduzir, a fim de cumprir com seu papel frente à representação. Portanto, o representante não detém em mãos o domínio sobre esse “algo“. “Algo acontece” no culto, assim como nos jogos esportivos, que foge à sua possibilidade de dominação.
Um exemplo disso pode ser percebido em determinados ritos que acontecem no culto, como é o caso de uma encenação da Paixão e Marte de Jesus Cristo. O espectador, que acompanha a cena, não enxerga mais a pessoa que está representando, mesmo que a conheça pessoalmente. Entretanto, o objetivo da encenação não visa em primeiro lugar aos espectadores, mas a si mesma enquanto manifestação e aproximação do mistério da fé. O espectador se encontra envolvido de tal maneira, que é capaz de experienciar um conjunto de sentido próprio daquele evento.
Aqui como que desaparece o jogador (ator), sendo que há, sobretudo, uma gradativa anulação da diferença entre os envolvidos, ator e espectador. O foco central vai se firmando em torno da “encenação mesma”, ela como que assume uma auto-produtividade, vai se desenrolando em seu espaço, na medida em que os envolvidos se permitem entregar-se à situação. O conteúdo de sentido é igual, tanto para os atores quando para os espectadores, sendo que estes possuem uma primazia metodológica frente aos atores. No entanto, isso não impossibilita que ambos se tomem igualmente participantes no efetuar-se da encenação.
Percebemos que a experiência do espectador, na verdade, é uma forma de participação no próprio jogo. Em outras palavras, a encenação proporciona uma experiência maior, na medida em que o espectador “mergulha” nela, entregando-se completamente ao movimento do jogo. Logo, percebemos que se cria um espaço próprio, pois já não é mais o dia-a-dia que está ali, mas, evidentemente, um espaço que, naquele momento, em si mesmo manifesta um conjunto de sentido. A esse respeito, Huizinga é preciso, ao afirmar:

Gadamer
“Uma das características mais marcantes do jogo é sua separação espacial em relação à vida quotidiana. É-lhe reservado, quer material ou idealmente, um espaço fechado, isolado do ambiente quotidiano, e é dentro desse espaço que o jogo se processa e que suas regras têm validade. Ora, a delimitação de um lugar sagrado é também a característica primordial de todo ato de culto”.
Isso também pode ser claramente percebido nas procissões, que exigem, por assim dizer, a presença do espectador dentro de um espaço próprio. Não há procissão sem espectador, de modo que não há também um modelo de procissão capaz de ser tomado como o mais cúltico. Talvez nisso repouse também a necessidade de haver uma inculturação, vindo a surgir inúmeros tipos de procissão, cada qual com características diferentes. Olhando a história do Brasil, uma pista disso pode ser encontrada, por exemplo, junto às procissões de Nossa Senhora, ou então, nos cultos afro-brasileiros. Quem participa da procissão ou culto, está sendo absorvido pelo conjunto do espetáculo.
Há uma manifestação de um conjunto de sentido, o que, em linguagem cristã, poderia ser traduzido como “comunhão“, no sentido de estar em “comum união“, numa sintonia tão profunda com relação ao acontecimento, possibilitando falar-se em “uno“. O espectador “realiza o que é o jogo como tal“, a saber, “ele, é não o jogador (ator), para quem e em quem se joga (representa) o jogo“. Isso tudo, porque há um sentido do conjunto do espetáculo a ser absorvido, não significando que o jogador (ator) esteja impossibilitado de experimentá-lo; porém, o espectador possui uma primazia metodológica. Conforme Gadamer, “pelo fato de o jogo ser realizado para ele, torna-se patente que possui um conteúdo de sentido que deve ser entendido, podendo por isso ser separado do comportamento do jogador (ator)“. O sentido não está submisso a uma base racional. O culto, assim como o jogo, remonta a uma origem “pré-racional“.
Tanto o jogo quanto o culto mantêm sua autonomia frente à subjetividade. Quem quer dominá-los, acaba como que sendo excluído do acesso ao espaço onde eles se efetuam. Quem assume o risco e se entrega, através da experiência de se deixar levar, se torna participante. Percebemos que o jogo, assim como o culto, não se efetua sem o participante, porém, em momento algum, pode-se atribuir a existência do jogo ao participante. Ele simplesmente joga, permitindo que o jogo se desenrole em si mesmo, ou seja, em seu ser jogado.
O jogo como tal é imprevisível. Todos com certeza temos de alguma maneira, uma experiência do que acontece, por exemplo, quando numa partida de futebol alguém busca dominar individualmente o jogo. Surge uma situação em que esse alguém quer ser a “estrela” a brilhar para os espectadores. Perde-se o conjunto e, com isso, todos os membros da equipe “justamente ao se transformarem numa competição de espetáculo correm o risco de perder seu verdadeiro caráter lúdico como competição“.
Predominam, nesse caso, tentativas individuais, perdendo-se a perspectiva de conjunto. Nessa situação aqueles jogadores, que assim jogam, estão preocupados em convencer o espectador de que são “estrelas” capazes de, individualmente, proporcionar-lhes o espetáculo, dominando o jogo. É bem verdade que pode haver verdadeiros craques em campo: ninguém o nega. Porém, infelizmente, o que acontece é que, quando os jogadores buscam determinar o jogo à base de suas habilidades individuais, perdem a perspectiva do próprio jogo. No caso do futebol, esta se efetiva melhor, quanto melhor o conjunto da equipe conseguir um espírito de grupo.
Gadamer faz questão de deixar claro que, para que o jogo aconteça, “é mais importante o fato de que no jogar se dá uma seriedade própria, até mesmo sagrada“. Isso porque o jogo tem que ser jogado. Só no ser jogado ele existe. Ele precisa de um espaço próprio. “Aquele que joga sabe por si mesmo que o jogo é nada mais que um jogo, e que se encontra num mundo que é determinado pela seriedade dos fins“. O jogo se efetua ao ser jogado, seguindo as próprias regras do jogo, conforme veremos a seguir.

Johan Huizinga
Características estruturais do jogo
Há no jogo regras especificas que exigem respeito a elas, por parte dos jogadores. Os jogadores se expõem ao risco de chegar a algum resultado ou não, isto e, é-lhes impossibilitado prever o resultado. “Não é a referencia que, a partir do jogo, de dentro para fora, aponta para a seriedade; é só a seriedade que há no jogo que permite que o jogo seja inteiramente um jogo“.
O jogo exige a predisposição de quem vai entrar nele e o conhecimento de suas regras, conforme veremos adiante, sem, no entanto, haver a possibilidade de prever qualquer resultado enquanto ele esta se efetivando. Dai a necessidade de chegar a uma perspectiva interna a ele e abandonar-se totalmente em tal espaço, assumindo como condição o risco de obter o resultado desejado ou não. “O atrativo que o jogo exerce sobre o jogador reside exatamente nesse risco. Desfrutamos assim de uma liberdade de decisão que esta correndo riscos e esta sendo inapelavelmente restringida“.
“Em principio, percebemos aqui o primado do jogo face à consciencia do jogador“. O horizonte temático não pode ser limitado, nem dominado pela subjetividade. O que lhe é possibilitado é decidir sobre este ou aquele jogo. Segundo Huizinga, “trata-se de uma realidade que ultrapassa a esfera da vida humana. Portanto, seu fundamento não reside na subjetividade, pois, se assim fosse, limitar-se-ia à humanidade“.
Outro fator de destaque é que a auto-produtividade, o movimento de vaivém do próprio jogo, além de seduzir e cativar leva a uma expectativa, por parte dos envolvidos. No principio, eles estão impossibilitados de se posicionarem frente a qualquer tentativa de dominá-lo. Eles simplesmente podem jogar, evidentemente, dentro das regras do próprio Jogo.
O ser surpreendido significa irritar-se, devido à perda do lugar por ele (jogador) anteriormente dominado. Não é possibilitado ao jogador dominar esse espaço. É como que admitir de antemão que algo se dá no jogo, sobre o que a subjetividade não tem o controle. “É o jogo que mantém o jogador a caminho, que o enreda no jogo, e que o mantém nele“. Cabe ao jogador manter a abertura para o jogo, seguindo suas regras.
A tensão surge na relação entre o interior do jogo e o ambiente em que esta sendo jogado. Uma vez participando dele, estamos submissos às suas regras. Portanto, é condição, para que o jogo se efetive como tal, que não sejam burladas suas regras, o que seria a tentativa de dominar o próprio jogo. Resulta, dessa tentativa, a famosa expressão popular: “Ele escondeu as cartas na manga“, isto é, fraudou o jogo, inserindo nele uma perspectiva que não era a da efetivação do próprio jogo, mas veio de fora, com o intuito de vencer.
Parece que o jogo não tem um sujeito capaz de dominá-lo. “… o verdadeiro sujeito do jogo não é o jogador, mas o próprio jogo”. O jogo se joga, e ponto final Os jogadores estão quase que absorvidos, isto é, participam enquanto contribuintes da possibilidade do jogo. É possível percebermos isso, ao buscarmos saber algo sobre determinado jogo em andamento. A primeira pergunta que normalmente se ouve é mais ou menos esta: “A quanto está o jogo?” Percebemos, aqui, que a pergunta refere-se ao jogo propriamente dito, em andamento no caso. Nunca, ou quase nunca, num primeiro momento, alguém costuma perguntar como os jogadores estão em seu domínio do jogo, ou algo assim. Há aí, reconhecida, uma autonomia.
Outro fato que pode ser destacado é a total impossibilidade de anteciparmos qualquer resultado e a necessidade de levar o jogo a serio. Segundo Gadamer: “Quem não leva a serio o jogo é um desmancha-prazeres. O modo de ser do jogo não permite que quem joga se comporte em relação ao jogo como se fosse um objeto. Aquele que joga sabe muito bem o que é o jogo e que o que esta fazendo é ‘apenas um jogo’, mas não sabe o que ele ‘sabe’ nisso“.
Qualquer tentativa de dominá-lo implica em não lhe reconhecer as regras intrínsecas. Pode-se, sim, falar que é dever de quem entra no jogo ter um certo ou total domínio (no sentido de conhecimento) das regras, a fim de possibilitar que a jogada flua com naturalidade. O que não é possível é querer jogar, determinando as regras a base de critérios subjetivos, portanto, que venham confirmar expectativas, por parte de quem as está formulando, a fim de não perder o domínio sobre o jogo.
Huizinga a esse respeito destaca que “todo jogo tem suas regras. São estas que determinam aquilo que ‘vale’ dentro do mundo temporário por ele circunscrito. As regras de todos os jogos são absolutas e não permitem discussão“. Podemos percebê-lo num caso bem simples, se analisarmos um jogo de baralho, por exemplo, a canastra. Existem diferentes tipos de canastra; porém, cada um com suas regras próprias. Ao optarem por um tipo de jogo, os jogadores, antes de o iniciarem, podem tirar dúvidas sobre tais regras, para evitar confusões. Uma vez esc1arecidas as regras, combinado ate quanto vai o jogo, em momento algum se discute sobre as regras. Simplesmente se aplicam, e ponto final. O cumprimento das regras acaba tornando o jogo mais atrativo, sem a possibilidade de manipulação por alguns dos parceiros. Ao pegarem as cartas na mão, eles estão como que entregues ao próprio jogo, em igualdade de condições.
Lançados à própria auto-produtividade do jogo, sem nenhuma certeza de que dali vai resultar alguma jogada com resultado positivo, resta-lhes jogar e entregar-se completamente à situação. Não há certeza alguma em se efetuar uma jogada. Há, sim, uma expectativa, a crença e o risco de que essa se confirme, sem, no entanto, ser possível dominar a situação, no sentido de manter qualquer tipo de domínio sobre o jogo, ou o espaço em que ele esta se efetivando. É possibilitado ao jogador, segundo as regras, mover-se dentro do espaço do próprio jogo, através da jogada que lhe é possível ser feita. A total imprevisibilidade ou antecipação de um resultado torna o jogo fascinante.
Se, no entanto, alguém tentar abrir o jogo, e convencer seus parceiros a fazerem o mesmo, mostrando as cartas que estão na mão, o jogo se tornará “in-jogável“. Alguém poderia argumentar, dizendo que dessa forma o jogo se tornaria transparente. De fato, torna-se transparente, mas nesse caso já não se trata mais de um jogo, e sim da reflexão e/ou análise racional do jogo. O jogo acontece necessariamente num espaço pré-reflexivo. No momento em que alguém, como participante o abre, para calcular de antemão todas as formas de jogo, o tornará “in-jogável”.
A expressão “vamos abrir o jogo” tem dois significados: significa “desocultamento” ou então uma tentativa de tornar o jogo transparente. Ocultamento não tem aqui o sentido de esconder, mas como algo ao qual os participantes não tem acesso. Ao querer abrir o jogo, nós estamos num nível de reflexão sobre ele. Não jogamos mais, queremos ver o resultado. A antecipação do resultado remete à idéia de fim do jogo.
Ao tornarmos o jogo transparente, parece que se está acabando com o elemento surpresa, característico da manifestação do movimento próprio do jogo, no desenrolar de sua auto-produtividade. Isso pode também ser aplicado às relações intersubjetivas. Num primeiro momento, nos parece que aquele que mantém o jogo fechado possui o domínio sobre o outro. Essa idéia remete a uma expectativa de que a subjetividade detenha o potencial de dominar a situação. No entanto, percebemos que, ao se tratar de um jogo, é completamente imprevisível antever qualquer resultado. Sendo assim, a idéia de abrir o jogo, para que alguém perca o domínio sobre a situação, no contexto sobre o qual estamos refletindo, se fosse aceitável, impossibilitaria expressões do tipo “o jogo do amor“, “o jogo do poder“, e assim por diante. Ao que se percebe, mesmo nas relações intersubjetivas, quando alguém diz “vamos abrir o jogo”, está reconhecendo o elemento de imprevisibilidade.
Ambos os parceiros do jogo estão como que envolvidos numa situação em que um não sabe o que o outro sabe, sendo que ambos não sabem o que se sabe a respeito disso. Frente à imprevisibilidade e busca de segurança, abrir o jogo assume um caráter de reflexividade sobre a situação, na perspectiva de buscar a total transparência ou, então, buscar saber o que não se sabe disso.
Entretanto, o fato de um dos parceiros manter o jogo fechado, não significa necessariamente o domínio da situação ou, sobre o outro. O domínio sobre o outro não pode ser denominado como um elemento constitutivo da relação intersubjetiva. A relação intersubjetiva, bem o sabemos, “pressupõe” uma relação de igualdade, de alteridade e de respeito ao outro. Não é possível dizer que ao dominar o jogo, ou então o parceiro, está-se mantendo o jogo.
Portanto, a expressão “abrir o jogo” deveria ser entendida no sentido de abandonar o espaço pré-reflexivo e assumir o risco de torná-lo reflexivo, sabendo de antemão que significa também interromper o movimento fascinante do próprio Jogo e, conseqüentemente, aceitar a possibilidade de não mais poder jogar com o parceiro dentro daquele espaço.

homo-ludens
Elementos da estrutura ontológica do compreender enquanto processo.
Até aqui tentamos demonstrar que a estrutura pré-reflexiva ontológica torna-se a condição para a reflexão. A perspectiva da hermenêutica não quer fugir da racionalidade, mas mostrar que a estrutura encontra-se na situação pré-reflexiva. O elemento fundador da racionalidade é, portanto, a estrutura pré-reflexiva.
O intento de Gadamer é tomar o jogo como modelo estrutural para a explicação da compreensão, e não enquanto identidade do conteúdo; não é tanto o processo metodo1ógico, mas muito mais o processo ontológico de compreensão, enquanto situação insuperável por parte dos parceiros entregues ao jogo.
O processo de compreensão, conforme veremos adiante, exige um certo se entregar à situação, de modo semelhante ao que acontece no jogo. O jogo só deveria ser tornado como modelo estrutural para explicar o porquê do processo de estruturação. Nos mesmos estamos nos encontrando como parceiros do processo de compreensão, na medida em que nos deixamos envolver, levar pelo jogo dentro de um espaço próprio. Isso pode ser claramente percebido, por exemplo, na utilização do jogo como meio terapêutico na ludoterapia.
Acontece que na ludoterapia, através do jogo, torna-se possível superar a distancia. No caso, possibilita-se a superação da distância entre nos e o que fazemos, pois o jogo, por assim dizer, somos nós mesmos. Ele possibilita uma forma de expressão não deformada pelo processo de reflexão. Nesse contexto, perdem-se as regras de distanciamento, principalmente por deixar de lado os elementos normativos que qualificam a “normalidade” dentro da qual o paciente está com problemas. Dessa forma, dentro de determinado espaço, o paciente pode se libertar dos condicionamentos normativos que o escravizam. Huizinga parece expressar bem isso, ao dizer:
“Desde a mais tenra infância, o encanto do jogo é reforçado por se fazer dele um segredo. Isto e, para nós, e não para os outros o que os outros fazem ‘lá fora’, é coisa de momento e não nos importa. Dentro do círculo do jogo, as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. Somos diferentes e fazemos coisas diferentes”.
Como a realidade do dia-a-dia como tal não é possível ser tomada, na ludoterapia o jogo providencia tal espaço. Exige-se do jogador, por outro lado, um determinado comportamento conforme as regras do jogo. Ao se entregar ao jogo, abre-se um espaço que não é aquele no qual o paciente se encontra sob os condicionamentos do dia-a-dia. Alí, ele pode entregar-se à situação e experimentar outro tipo de possibilidade de comportamento, sem ser ameaçado pelas conseqüências.
Ao que se percebe, no jogo possibilita-se uma quebra da hierarquia estabelecida pelos condicionamentos do dia-a-dia. Parece que ele desempenha um papel de auto-atração. Lança sobre nós um feitiço, tornando-se fascinante, cativante, impossibilitando o domínio por parte de alguém. Ele tem existência própria, uma “natureza própria“, ou seja, “o sujeito do jogo não são os jogadores. Ele simplesmente ganha representação através dos que jogam o jogo“. Nele toda postura dominadora fica de lado. Percebemos aqui que, nesse sentido, a hermenêutica, em última instância, se tornara uma critica radical à tradição da racionalidade. O jogo exerce um fascinio sobre nós e, aparentemente, também nos submete, não se sabe a quem.
O próprio jogo assume o lugar antes dominado pela subjetividade. Porém, para ser jogado ele sempre exige a participação dos parceiros que o executam, os quais não se podem desfazer de sua subjetividade.
A subjetividade nunca desaparece, mas permanece como que em concordância com as regras do jogo e ajudando “algo” até então desconhecido a se desabrochar em si mesmo no jogador. “A leveza do jogo, que não precisa necessariamente significar uma real falta de esforço, aludindo apenas para o fenômeno da ausência de tensão (Angestrengtheit), será experimentada subjetivamente como um alivio“. O movimento, o vai-vem pertence tão essencialmente ao jogo que, em último sentido, faz com que de forma alguma haja um jogar-para-si-somente. É necessário e condição, para que seja um jogo, que haja alguém ou algo com o qual o jogador jogue, de modo a ele ter um contra-lance ao lance dado, mesmo que não seja tal uma pessoa.
O jogo só cria uma situação favorável devido à possibilidade de o jogador se colocar a si mesmo em risco. Posso me auto-experimentar no jogo, ele me dá a possibilidade de um comportamento que normalmente não devo ter. Ao jogar, se experimentam diferentes papeis sociais. De certo modo, é um processo reflexivo, mas não no sentido teórico nem epistemológico. É como experimentar a participação numa “quase-reflexividade” ontológica, talvez podendo ser mais bem compreendida com o conceito “pró-flexão” .
Essa “pró-flexao” se torna possível, na medida em que o indivíduo se entrega ao próprio espaço do jogo. É ali que ele poderá fazer tal experiência enquanto experimentação de si mesmo, sem ser perturbado pelos condicionamentos do dia-a-dia. É aquela idéia de que algo, enquanto algo se revela, adquire sentido, à proporção que seu sentido é, por assim dizer, de certo modo compreendido por aquele que esta fazendo a experiência.
A mesma estrutura encontramo-la na analogia da ficcionalidade interna da obra de arte. Percebe-se aí uma certa experiência da produção de um espaço próprio da obra de arte, onde “o ‘sujeito’ da experiência da arte, o que fica e permanece, não é a subjetividade de quem a experimenta, mas a própria obra de arte“. Enquanto tal é marcada uma diferença clara do nosso acesso direto à obra, via reflexão, e o acesso direto, via ontologia.
O jogo deveria lançar uma luz para a própria experiência estética. O modo de ser da obra de arte é intimamente vinculado ao seu ser experimentado, no sentido de experienciado, e não à análise do modo objetivo. Nessa linha de raciocínio, Gadamer dirá que o jogo:
“Tem uma natureza própria, independente da consciência daqueles que jogam. O jogo encontra-se também lá, sim, propriamente lá, onde nenhum ser-para-si da subjetividade limita o horizonte temático e onde não existem sujeitos que se comportam ludicamente”.
O jogo marca um horizonte para além daquele dos participantes. Apesar de o jogo acontecer, devido à participação ativa dos seus envolvidos, o ato de jogar não deve ser entendido como um mero desempenho de uma atividade. Conforme Gadamer, “…para a linguagem, é obvio que o verdadeiro sujeito do jogo não é a subjetividade daquele que entre outras atividades também joga, mas o próprio jogo“.
Já dissemos, anteriormente, que o sujeito do jogo não é o jogador, porém, através dele, o jogo simplesmente ganha sua representação. No jogar “0 movimento que é jogo não possui nenhum alvo em que termine, mas renova-se em constante repetição. O movimento de vaivém é obviamente tão central para a determinação da essência do jogo que chega a ser indiferente quem ou o que executa esse movimento. O movimento do jogo como tal também é desprovido de substrato. É o jogo que é jogado ou que se desenrola como jogo; não há um sujeito fixo que esteja jogando ali. O jogo é a realização do movimento como tal“. É, pois, o próprio jogo que mantém o jogador a caminho, que o enreda no jogo.

Gadamer
Aplicação das estruturas do jogo ao processo de compreensão
Tal estrutura Gadamer irá aplicar na área do conhecimento, da compreensão. Há “algo” que se manifesta, um conjunto de sentido que, na hermenêutica, não depende mais de uma subjetividade que impõe sobre o objeto o que ela busca conhecer. Em outras palavras, não é a subjetividade que arranca o sentido do objeto. Ao invés disso, na hermenêutica gadameriana, há uma relação de alteridade entre a subjetividade e o objeto, de modo que a subjetividade não desaparece. Há um processo pré-reflexivo que chega a ponto de quase se tornar a instância de autoridade que determina a reflexão.
Gadamer, nesse sentido, vai procurar defender a interpretação da arbitrariedade e das limitações que derivam de inconscientes hábitos mentais, “… Pois o que importa é manter a vista atenta à coisa através de todos os desvios a que se vê constantemente submetido o intérprete em virtude das idéias que lhe ocorrem. Quem quiser compreender um texto, realiza sempre um projetar“.
No caso em que alguém se dirige ao texto, ele nunca o faz como uma tabula rasa, pois “… Em principio, quem quer compreender um texto deve estar disposto a deixar que este lhe diga alguma coisa“. Aqui se faz referência clara à alteridade do texto.
Ao dirigirmo-nos ao texto, no intuito de torná-lo como objeto, introduzimos nele nossos próprios “pré-conceitos“, ou, melhor, somente se legitimam nossos “preconceitos“, nossa perspectiva. Resulta daí que não fazemos mais do que legitimar nossa pré-compreensão, nossas expectativas, perdendo de vista a “coisa mesma“.
“Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente deve, desde o principio, mostrar-se receptiva à alteridade do texto. Mas essa receptividade não pressupõe nem uma ‘neutralidade’ com relação à coisa nem tampouco uma anulação de si mesma; implica antes uma destacada apropriação das opiniões prévias e preconceitos pessoais. O que importa é dar-se conta dos próprios pressupostos, a fim de que o próprio texto possa apresentar-se em sua alteridade, podendo assim confrontar sua verdade com as opiniões prévias pessoais”.
A hermenêutica em Gadamer vai buscar demonstrar sua tarefa em defender o sentido racional do texto contra toda imposição vinda de fora:
“A questão, portanto, não está em assegurar-se frente à tradição que faz ouvir sua voz a partir do texto, mas, ao contrário, trata-se de manter afastado tudo que possa impedir alguém de compreendê-la a partir da própria coisa em questão. São os preconceitos não percebidos os que, com seu domínio, nos tornam surdos para a coisa de que nos fala a tradição”.
Nesse sentido, semelhantemente ao jogo e ao culto, também aqui qualquer tentativa de dominar a compreensão é passível de confusões e equívocos.
Desse modo, quem quiser compreender, deve estar disposto a deixar que o texto mesmo lhe “diga” alguma coisa. O intérprete deve falar, para escutar o texto, ou seja, deve propor um “sentido” após o outro, num “sentido” melhor e mais adequado do que o outro, para que o texto apareça sempre mais em sua alteridade, como realmente é. São os “prejuizos“, de que não temos consciência, os que nos tornam surdos para a voz do texto.
Assim como no jogo, “algo” se dá a compreender, na medida em que aquele que quer compreender deve ser capaz de ouvir o outro, numa relação de alteridade, sem hierarquia, mas igualdade de condições, para com ele estabelecer um “diálogo” (Gespräch). A idéia a que se chega efetuado o diátlogo, é um resultado de uma experiência ontologicamente determinada. Por enquanto, vamos nos limitar a ficar com essa idéia sob forma de tese.
Portanto, o sentido não é imposto ao texto. Essa é a diferença fundamental entre Gadamer e Heidegger. Em Gadamer, o texto é um outro concreto, com o qual eu estabeleço uma relação de alteridade, ao passo que, para Heidegger, ele é um objeto disponível, do qual disponho para me impor no mundo.
Gadamer não e claro, ao se referir à “coisa mesma“; ele não explicita o que é. Com base nas pistas que são dadas, no decorrer do texto, parece que ele está se referindo a uma espécie de núcleo central que é capaz de manter uma identidade consigo mesmo, não determinável por qualquer tentativa exterior. Nesse ponto, a instauração do sentido parece ficar mais clara. Conforme Gadamer “uma vez … apareça um primeiro sentido no texto, o intérprete pré-lineia um sentido do todo. Naturalmente que o sentido somente se manifesta porque quem lê o texto lê a partir de determinadas expectativas e na perspectiva de um sentido determinado”. A compreensão do que está posto no texto consiste precisamente na elaboração desse projeto prévio, que, obviamente, tem que ir sendo constantemente revisado com base no que se dá conforme se avança na penetração do sentido.
Aquele que se dirige a um texto, no intuito de interpretá-lo à base de sua pré-compreensão, apenas busca legitimar suas próprias idéias. Essa parece ser uma questão central, que faz com que “a coisa mesma” do texto não possa ser ignorada. Há, sem duvida, algo a que se tem acesso, que se abre à compreensão, sem que seja possível compreendê-lo em sua totalidade, mas enquanto “algo” dentro da totalidade de sentido que se manifesta.
Gadamer sabe muito bem que “a compreensão só alcança sua verdadeira possibilidade quando as opiniões prévias com as quais inicia não forem arbitrarias“, mas sabe também ser necessário que “o interprete não se dirija diretamente aos textos a partir da opinião prévia que lhe é própria, mas examine expressamente essas opiniões quanto à sua legitimação, ou seja, quanta à sua origem e validez“.
São as regras do jogo da compreensão que vão sendo travadas, e aos poucos vai se percebendo a necessidade de cumpri-las. Segundo Gadamer, “Diante de qualquer texto, nossa tarefa é não introduzir, direta e acriticamente, nossos próprios hábitos extraídos da linguagem (…). Ao contrario, reconhecemos que a nossa tarefa é alcançar a compreensão do texto somente a partir do hábito da linguagem da época e de seu autor”.
E logo depois, Gadamer acrescenta: “O que se exige é simplesmente a abertura para a opinião do outro ou para a opinião do texto. Mas essa abertura implica sempre colocar a opinião do outro em alguma relação com o conjunto das opiniões próprias, ou que a gente se ponha em certa relação com elas“. É a própria alteridade do texto que o exige, e “… Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente deve, desde o principio, mostrar-se receptiva à alteridade do texto”. Evidentemente, aqui não se trata de uma espécie de auto-cancelação da subjetividade, nem de negar a existência de “pré-juízos”; porém, essa questão está muito mais ligada a uma tentativa de entrar corretamente no círculo hermenêutico, seguindo suas regras.
Gadamer, nesse sentido, não nega a reflexão de Heidegger, ou seja, o texto de fato está-ai, disponível. Cabe ao intérprete dirigir-se a ele e buscar a interpretação. Porém, se o fizer conforme o espírito do racionalismo, o texto se fecha, ocorrendo somente, no máximo, a legitimação do que já era conhecido, ao serem introduzidas no texto as perspectivas que interessam ao intérprete.
Semelhante ao jogo, também na interpretação de um texto não está na subjetividade a capacidade de dominar a situação. Pelo contrario, exige-se um entregar-se à situação, a fim de avançar no processo de efetivação da instauração do sentido ou, em outras palavras, avançar no processo de penetração do sentido, enquanto resultado da experiência que o intérprete faz sem poder compreendê-lo em sua totalidade.
