A Tragédia Grega
A Tragédia Grega
Terceira Parte
Os concursos trágicos

Tirano ateniense - Canova, Antonio
As encenações trágicas, tais como as conhecemos, tiveram início com a institucionalização da chamada Dyonissia, os “Concursos Trágicos”, no governo do tirano ateniense Pisístrato (cerca 536-534 a.C.). Famoso por ter sido “hábil e bonacheirão”, o autocrata rapidamente compreendeu a potencialidade política do Teatro, dele lançando mão para popularizar o seu regime. Sólon (668-559 a.C.), o mais famoso legislador ateniense, ao dar-se conta disso, certa vez abandonou em pleno andamento, uma representação que assistia em protesto contra a manipulação política das artes. O velho sábio, desiludido, retirou-se do teatro sentindo-se vencido.
![]() teatro clássico grego - Boulanger, Gustave |
Naquela época a encenação teatral ainda dava seus primeiros passos e seu apogeu só se deu no século seguinte, no século V a.C., ao surgir a trindade dos soberbos autores trágicos: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. O ciclo da tragédia só encerrou-se quando, à época de Aristóteles, no século IV a.C., o jovem teatrólogo Agaton compôs peças cujos elementos não se inspiram mais na tradição, e sim resultam da sua própria criação. O período abarca mais ou menos uns cento e cinqüenta anos, mas o seu apogeu concentrou-se do início das guerras persas (490-480 a.C.) até encerrar-se com a morte de Eurípedes em 406 a.C. (dois anos antes da capitulação de Atenas perante Esparta), isto é uns 70 ou 80 anos. Literariamente seus marcos seriam a primeira apresentação de “Os Persas” de Ésquilo, que se supõe tenham ocorrido em 472 a.C., e as “As Troianas” de Eurípedes em 415 a.C.
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A organização das dionisíacas |
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Mês |
Denominação da festa |
| Dezembro |
A Pequena Dionisíaca |
| Janeiro |
A Lanea |
| Fevereiro |
Anthesteria |
| Março | A Grande Dionisíaca, celebrada após a procissão das Panatenéias, que durava seis dias |
Em cada uma delas, concorriam apenas três poetas, escolhidos pelo Honorável Arconte, o patriarca da cidade. A inscrição era voluntária, cabendo ao autor apresentar três tragédias e um drama satírico, – uma tetralogia. Cabia ao Estado (Theorica) a premiação dos poetas e a manutenção, durante a temporada, do sustento dos hypocrites (os atores). Os integrantes do coro por sua vez eram mantidos por patrocinadores privados, em geral atenienses ricos que procuravam ganhar o respeito da sociedade e o reconhecimento público com a prática do mecenato. Feita a escolha dos três autores, o nome deles era submetido a uma votação por uma comissão de 500 juízes (50 de cada um dos demos da cidade) que colocavam o nome do seu preferido escrito numa pequena esfera que, depois, era depositada numa das dez urnas existentes no Pártenon. A obra daquele que foi indicado começa a ser representada a partir do horário matutino, sendo que as dos outros preencherão os dias restantes até que o festival se encerrasse. O poeta escolhido tinha o seu nome anunciado pelo heraldo e, em seguida, ele era coroado pelo Honorável Arconte com uma coroa de hera, a planta sagrada de Dionísio.

Dionisos, Ceres e Eros, Aachen, Jans von
A filosofia à época da tragédia
Entende-se a época da Grécia Clássica como um dos momentos supremos da racionalidade humana, um dos poucos instantes em que imperaram as luzes em meio a um mundo de superstição, assustado pelas malignidades sobrenaturais. Essa interpretação, de viés iluminista, muito difundida até nossos dias, merece, porém alguns reparos. Estes só foram possíveis graças à intensificação da pesquisa erudita e de uma maior seriedade científica na historiografia moderna (estimulada de certo modo pelas intuições do poeta Hölderlin e de Nietzsche). O resultado da “reavaliação” indica uma sociedade grega muito mais complexa, onde os elementos racionais também estavam acossados pelo assombroso, pela superstição, misticismo e medo do oculto. Pelo menos numa escala bem maior do que suspeitavam os historiadores iluministas e positivistas do século passado.

Apolo e Dafne - Bernini, Gian Lorenzo
Daremos alguns exemplos de como conviviam dialeticamente esses elementos racionais e irracionais entre alguns pensadores e políticos do período clássico. Representativo é caso de Xenofonte que relata na parte final da “Anábasis”, na qual ele aborda a importância dos rituais interpretativos (a análise das vísceras de um animal sacrificado) para decidir o destino da tropa que ele comandava, alertando os seus leitores para os perigos que incorrem aqueles que não observam os augúrios. Em nenhum momento esses discípulo de Sócrates pôs em dúvida a validade de tal tipo de crença.

mulher grega - Courbet, Gustave
O helenista suíço André Bonnard também mostrou essa ambigüidade do universo cultural helênico. Nem mesmo as escolas filosóficas escaparam de escorregadelas nas crendices populares. Demócrito, o filósofo atomista, levando ao extremo o seu materialismo, acreditava que o sangue das mulheres menstruadas servia com um perfeito antídoto contra os insetos devoradores de cereais. Temístocles, o consagrado herói da vitória sobre os persas, não hesitou em sacrificar vidas humanas aos deuses nas vésperas da vitória de Salamina (repetindo um ritual que em nada deveu aos praticados nos tempos arcaicos, quando o rei Agamennon, por exemplo, imolou a própria filha).

Agamenon - Bellucci, Antonio
O Impacto do Racionalismo
Apesar dessas pulsões do irracional (há um célebre ensaio do helenista E.R. Dodds sobre isso), foi inegável o impacto do pensamento racionalista sobre a sociedade grega em geral, ajudando-os a superarem o domínio dos mitos pelo domínio da razão. E aqui nos demoraremos para descrever sinteticamente como se processou esse fenômeno, dando-lhe uma origem material. No século V a.C., o século de ouro da cultura grega, ocorreu uma radical mudança no pensamento convencional, tributário do mundo místico-rural. A ampliação das relações econômicas dos gregos para regiões cada vez mais distantes fez com que o pensamento convencional, de origem rural, entrasse em crise. As cidades crescem e com elas a presença das classes médias aumenta. Nota-se por toda a parte uma descrença generalizada nos deuses homéricos. O filósofo Xenófanes ironizou a religião dizendo que “se os cavalos pudessem se expressar criariam deuses feitos a sua imagem”. As antigas escolas racionalistas-naturalistas (como a de Mileto) que discutiram exaustivamente a composição do mundo material deram lugar, desde Sócrates, aos debates humanistas, que cuidaram então de determinar se os valores humanos (tais como o da idéia do bem e da idéia do belo) eram ou não permanentes. Com a expansão da democracia, questionou-se tudo. Os sofistas, mestres profissionais da palavra e do pensamento, emergem com vigor naquele mesmo século lançando dúvida sobre tudo aquilo que lhes parecia ortodoxo ou dogmático. Nesta polêmica embarcam Sócrates, o maior dialeta ateniense, e seu jovem discípulo Platão, que procuram erguer limites à avalanche dos sofistas.

Os sofistas, Botticelli, Sandro
A polêmica foi tão intensa que afetou as artes cênicas. Tanto na comédia de Aristófanes como nas encenações trágicas de Eurípides verifica-se quão profundamente o espírito da desconfiança no que era estabelecido enraizou-se na população ateniense. O desafio dos sofistas ao pensamento convencional e à ortodoxia religiosa auxilia-nos a compreender a função que a Tragédia irá ocupar – a tarefa de voltar a agregar pela emoção violenta o que se desagrega na esfera das crenças. Para Nieztsche, porém, a desagregação que mais tarde iria ocorrer com a representação do trágico. que ele considerava a melhor expressão da vitalidade do grego, deveu-se ao espírito excessivamente inquisidor de Sócrates. Ao querer, o filósofo, saber a origem dos comportamentos morais, ao exigir, para todas as sensações, uma explicação lógica, ele teria inibido a espontaneidade necessária à representação dramática. O socratismo teria sufocado a livre manifestação dos instintos básicos.


























