Archive for the ‘Nietzsche’ Category

17
out

A Tragédia Grega

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A Tragédia Grega

Quinta Parte

A Tragédia como Síntese

A tragédia - Conca, Sebastiano
A tragédia – Conca, Sebastiano

O sucesso da representação trágica no século V a.C. deveu-se à agudização dessas tensões bem como da ampliação das perplexidades dos indivíduos, cujas ligações anteriores (com os phylai, com os deuses domésticos, com as velhas fidelidades e compromissos) entraram em crise.

 

Encenação e temática

atriz em scena - Giovanni Andrea
atriz em scena – Giovanni Andrea

Atribui-se ao teatrólogo Tespis (cerca 536 a.C.) a criação de uma antagonista em relação ao coro, mas desconhecemos qual era a sua função original. Frínico (cerca de 512 a.C.), mais tarde, colocou em cena um ator representando vários papéis inclusive os femininos. Foi somente com Ésquilo que os principais cânones da encenação foram estabelecidos, a começar pela adoção de dois atores: o protagonista e o deuteroagonista.

teatro grego - Botticelli, Sandro
teatro grego – Botticelli, Sandro

Para Buckhardt a limitação do número de atores na maior parte das representações teatrais deveu-se à questões de ordem técnica. Eram escassos os hypocrites que possuíam a voz sonora e a postura soberba necessária para tornarem-se audíveis, impondo sua presença para uma platéia que podia chegar até seis mil pessoas. O helenista H. D. F. Kitto refuta tal argumentação indicando que o número de atores, maior ou menor, devia-se às intenções dramáticas do autor. Com Sófocles deu-se a adição de mais um ator, o tritagonista, que, seguindo Kitto, entende-se, sociologicamente, como fruto da necessidade de refletir a dinâmica que o individualismo adquire na sociedade ateniense cada vez mais democratizada. É evidente que tal aumento da dimensão da individualidade refletia uma possibilidade dramática mais intensa, permitindo definir com mais precisão os conflitos de caráter, de personalidade e até das posições políticas de cada um. Basta lembrarmos de Antígona, de Édipo, de Orestes, de Prometeu, de Fedra, de Hipólito, e mesmo de Medéia, cujas caraterísticas pessoais fizeram com que se consagrassem como personalidades universais.

 O Declínio do Coro

Decadência do coro - Batoni, Pompeo
Decadência do coro – Batoni, Pompeo

Com o passar do tempo verificou-se uma significativa diminuição da atividade do coro. Entendendo-se que ele representava simbolicamente a coletividade arcaica – vestígio da vida antiga marcada pelo coletivismo tribal – o coro ficoiu cada vez mais desfocado e deslocado na vida urbana. Hegel, o filósofo que dedicou notáveis observações em seus estudos sobre a tragédia, viu a crescente polarização entre o protagonista e o coro uma afirmação hipostasiada da relação social: o conflito entre o herói aristocrático e a comunidade plebéia. Esse enfrentamento favorecia e destacava dramaticamente o herói na medida em que ele era a exclusiva vítima de um destino ingrato e cruel, atraindo para si as atenções do auditório.

 O Enredo Trágico

A trama e seus personagens - Botticelli, Sandro
A trama e seus personagens – Botticelli, Sandro

Parece que só em seu início a tragédia preocupou-se com a temática contemporânea. Frínico abordou a “Tomada de Mileto” em 492 a.C. e, como lembrou um assunto desagradável para os atenienses, ele foi multado em mil dracmas. O próprio Ésquilo iniciou sua carreira de vencedor dos concursos trágicos com a peça “Os Persas”. Tudo nos leva a crer que abordar assuntos extraídos da atualidade trazia problemas para os autores, fazendo então que procurassem inspiração nos velhos mitos e lendas conhecidos por todos. Nesse sentido não havia originalidade, pois as histórias eram de domínio público. Esse é um dos aspectos que marcam a profunda diferença entre o teatro clássico e o moderno. Atualmente o público moderno é atraído pela novidade do enredo, que ser surpreendido. Para os atenienses, pelo contrário, eram os efeitos dramáticos que o autor obtinha extraídos de um velha e sabida história é que importavam e não o enredo. Isso explica por que temos, na mesma época, a mesma história teatralizada por autores diferentes, sendo que cada um ao seu modo, selecionava um aspecto específico da história, dando mais ênfase ao que considerava como o mais adequado aos seus propósitos dramáticos.

Electra, Dossi, Dosso
Electra, Dossi, Dosso

Na “Orestéia” de Ésquilo, por exemplo, Electra aparece como um personagem absolutamente secundário, apenas um elemento de reforço ao drama vivido pelo seu irmão Orestes. Com Eurípedes, Electra adquire outra dimensão, sendo a protagonista, a autora intelectual, da terrível vingança que levou sua mãe Cliptemnestra à morte, enquanto que o seu irmão Orestes, é visto apenas como o instrumento do seu ardil. Sabe-se que o público permitia algumas alterações na história original. Na lenda, por exemplo, Édipo não se cegou, morrendo tranqüilamente em seu leito. Sófocles, porém, deu-lhe o destino de um pobre cego, auto-exilado e abandonado por todos. De resto, o público ateniense sempre deu demonstrações de arraigado conservadorismo, o que explica o insucesso de Eurípides, o mais “avançado” de seus teatrólogos. A constância desse autor em problematizar abertamente o contemporâneo e apresentar às injustiças cometidas (basta lembrarmos as filípicas de Medéia contra os Homens em geral e o ideal do guerreiro em particular) fez com que ele fosse considerado pelos seus contemporâneos, apesar dos louvores de Aristóteles, como um autor menor (e um eterno derrotado nos concursos teatrais).

 O Mito como Inspiração

 

O rapto de Europa - Giordano, Luca
O rapto de Europa – Giordano, Luca
 

A possível explicação da extraordinária quantidade de peças produzidas pelos três grandes clássicos da dramaturgia grega (ao redor de trezentas, das quais só nos restaram 32), deveu-se à riqueza temática das histórias míticas gregas. Todas elas estreitamente vinculadas à cultura coletiva. De certo modo as lendas e as narrativas que envolviam os heróis e as famílias ilustres formavam um imenso reservatório abeberado sem parar pelos poetas.

 Os aspectos técnicos 

Ruinas de um teatro grego Berchem, Nicolaes
Ruinas de um teatro grego Berchem, Nicolaes

O antigo teatro grego, construído sempre em forma circular devido ao simbologismo mágico e perfeito da circunferência, compunha-se de três grandes partes: 1) a Orquestra, em geral uma espaço circular bem em frente à platéia de onde o chefe do coro, o koriaphaios, dirigia-se aos presentes explicando o que iriam assistir; 2) o Proscênio (em frente a cena), a parte decorada do tetro, onde os atores (Hypocrates) faziam a sua encenação (divida em três entradas), onde os cenários se alteravam: 3) O Auditório, o Kolia, em forma semicircular que envolvia a orquestra e o proscênio. Era dividido em dois setores (Diazoma), sendo que o que estava mais próximo do espetáculo era chamado de Proedria, reservado às autoridades e aos convidados mais eminentes, e onde se sentava o mais honorável dos espectadores – o Elefthereos Dionyssos, o sumo sacerdote de Dionísio.

recursos materiais do teatro, Caron, Antoine
recursos materiais do teatro, Caron, Antoine

O espetáculo utilizava-se de uma série de recursos mecânicos para auxiliar o efeito dramático pretendido pelos poetas, destacando-se: 1) o Aeorema, era uma espécie de trapézio em que um deus (Theos ex machiné), era descido até o cenário para resolver uma trama aparentemente sem solução. Simbolizava uma espécie de chegada da justiça reparando os desacertos dos homens procurando estabelecer uma concórdia geral; 2) O Periactoi, eram dois pilares colocados nas extremidades do cenário que giravam ao redor de um eixo ajudando a mudar o fundo da cena; 3) O Ekeclema, uma plataforma suspensa na qual se colocava o corpo das pessoas mortas, porque nunca se representava em frente ao pública a morte ou o suicídio dos personagens.

Os atores, Fuseli, John Henry

Os atores, Fuseli, John Henry

Os atores, sempre homens, apresentavam-se com Pessoas, com máscaras, não revelando sua verdadeira identidade (daí serem chamados de hypocrites). A idade, o sexo, a importância social e o estado espiritual de cada personagem vinha, por assim dizer, “escrita” na máscara. Ela tinha que ter uma expressão (tristeza, alegria, pavor, etc..) claramente identificada pelo público, sem pairar nenhum dúvida sob qual tipo de emoção o personagem se encontrava dominado naquele momento do ato.

O eclipse da tragédia

A queda dos gigantes do Olimpo - Bayeu y Subias, Francisco
A queda dos gigantes do Olimpo – Bayeu y Subias, Francisco

O apogeu da tragédia ocorreu num momento de extraordinária complexidade sociológica e histórica: o avanço da democracia e o declínio do poder político dos eupátridas, a transferência de fidelidade e compromissos dos indivíduos do clã para a polis, a descrença nos deuses tradicionais e a erupção do movimento sofista, que se conjugam com os notáveis desafios vindos de fora que os atenienses tiveram que enfrentar (a ameaça persa e, posteriormente, pelo enfrentamento com Esparta), na luta pela hegemonia do mundo helênico. Ela, a tragédia, conheceu o seu eclipse na medida em que a tecido histórico se alterou.

 A Perda da Autonomia da Polis

Triunfo de Cesar - Andrea del Sarto
Triunfo de Cesar – Andrea del Sarto

No século IV a.C. Atenas, exaurida pela longa Guerra do Peloponeso, travada contra Esparta, pouco pôde fazer para assegurar a sua autonomia, para preservar a Eleutéria (independência em face ao estrangeiro). Felipe II e seu filho Alexandre, da Macedônia, após a vitória nos campos de batalha, terminam por impor-se sobre as Poléis gregas. A submissão delas ao Estado Imperial Macedônico fez com que perdessem a liberdade política e econômica. Por conseqüência, o espetáculo cênico, que era o momento do encontro da comunidade com suas perplexidades, o momento de reflexão e catarse coletiva, deixou de ter sua razão de ser.

 A Filosofia Existencial

O nascimento da filosofia - Bray, Jan de
O nascimento da filosofia – Bray, Jan de

Como resultado da decadência do espetáculo trágico, surgiram, sublimando as emoções coletivas, diversas correntes filosóficas (denominadas de pós-socráticas) que se caracterizaram por expressar o retorno ao privado, ao subjetivo, ao íntimo, que são as escolas dos cínicos, dos estóicos, dos cépticos e dos epicuristas. Cada uma delas apresentou uma versão, muito própria, da subjetividade grega dilacerada. A partir de então, os espetáculos cênicos deixam de ser a representação das angústias e anseios da coletividade, sendo apreciados apenas como divertimento e lazer. Deu-se pois uma transferência de preocupações, do geral ao particular, criando-se as condições para o surgimento da filosofia “existencial” do período helenístico. Não foi o socratismo com o seu racionalismo e o recurso à lógica – como acusou Nietzsche – quem embaraçou e esvaziou a tragédia do seu sentido, mas sim o fator político que, ao fazer a cidade-estado perder a Eleutéria (a liberdade face ao estrangeiro), tornou o espetáculo trágico sem sentido. A Tragédia encontrou então a sua morte.

 Autores e peças

Ésquilo (525-455 a .C.): o mais místico dos autores gregos. Culpa e castigo o tema comum, pensamentos sombrios, paixões violentas: sua religião é o terror; sua moral, sofrer para aprender. Das 80 ou mais peças que escreveu só nos restaram sete:

 

As suplicantes - Bronzino, Agnolo
As suplicantes – Bronzino, Agnolo
Data provável (a.C.) Título da peça
472 Os persas
467 Os sete contra Tebas
464 As suplicantes
458 Agamemnon
458 Coéfora
458 Eumênides
431

Prometeu acorrentado

Sófocles (497-405 a.C.): considerado o maior dramaturgo grego, viveu quase por inteiro o século de Péricles. Procurava conciliar razão e fé. Seus heróis colaboram com o destino, fazendo por merecer a fatalidade, procurava colocar a situação como se o destino fosse a teoria e os homens a prática. Apraz-lhe gênios fortes colocando-os com tímidos e acomodados. Duas de suas obras servirão a Freud para elaborar a teoria do complexo de Édipo e o complexo de Electra. É o mais representado dos autores gregos nos tempos modernos. Suas obras principais são:

 

Electra- Gennari, Cesare

Electra- Gennari, Cesare

Data provável (a.C.) Título da peça
430 Os Traquineos
442 Antígona
440 Ajax
410 Electra
409 Filoctetes
407 Édipo o tirano
405 Édipo em Colono

Eurípides (480-406 a.C.): influenciado pelo movimento sofista, foi o mais progressista dos trágicos gregos, não chegando entretanto a negar as tradições. Supõe-se que tenha sido um dos primeiros autores a colocar e analisar o amor e o ciúme no teatro. Humanista e individualista, tratou do drama do homem comum. Na opinião de Aristóteles (in Poética) “pintou os homens como são”. As suas principais obras, em número de 19, são:

 
Andromaca - Bor, Paulus

Andromaca - Bor, Paulus

Data provável (a.C.) Título da peça
450 Résus
438 Alceste
431 Medéia
430 Os Heráclidas
428 Hipólito
427 Andrômaca
424 Hécabe
422 As suplicantes
422 Héracles
420 Electra
415 As troianas
412 Helena
414 Íon
413 Ifigênia em Tauris
410 Os Fenícios
410 Ifigênia em Avlis
410 O Baco
408 Os Ciclopes
408 Orestes
As troianas - Ghisi, Giorgio

As troianas - Ghisi, Giorgio

 

17
out

A Tragédia Grega

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A Tragédia Grega

Terceira Parte

Os concursos trágicos

Tirano ateniense - Canova, Antonio

Tirano ateniense - Canova, Antonio

As encenações trágicas, tais como as conhecemos, tiveram início com a institucionalização da chamada Dyonissia, os “Concursos Trágicos”, no governo do tirano ateniense Pisístrato (cerca 536-534 a.C.). Famoso por ter sido “hábil e bonacheirão”, o autocrata rapidamente compreendeu a potencialidade política do Teatro, dele lançando mão para popularizar o seu regime. Sólon (668-559 a.C.), o mais famoso legislador ateniense, ao dar-se conta disso, certa vez abandonou em pleno andamento, uma representação que assistia em protesto contra a manipulação política das artes. O velho sábio, desiludido, retirou-se do teatro sentindo-se vencido.

 

teatro clássico grego - Boulanger, Gustave

teatro clássico grego - Boulanger, Gustave

Naquela época a encenação teatral ainda dava seus primeiros passos e seu apogeu só se deu no século seguinte, no século V a.C., ao surgir a trindade dos soberbos autores trágicos: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. O ciclo da tragédia só encerrou-se quando, à época de Aristóteles, no século IV a.C., o jovem teatrólogo Agaton compôs peças cujos elementos não se inspiram mais na tradição, e sim resultam da sua própria criação. O período abarca mais ou menos uns cento e cinqüenta anos, mas o seu apogeu concentrou-se do início das guerras persas (490-480 a.C.) até encerrar-se com a morte de Eurípedes em 406 a.C. (dois anos antes da capitulação de Atenas perante Esparta), isto é uns 70 ou 80 anos. Literariamente seus marcos seriam a primeira apresentação de “Os Persas” de Ésquilo, que se supõe tenham ocorrido em 472 a.C., e as “As Troianas” de Eurípedes em 415 a.C.

 

A organização das dionisíacas

Mês

Denominação da festa

Dezembro

A Pequena Dionisíaca

Janeiro

A Lanea

Fevereiro

Anthesteria

Março A Grande Dionisíaca, celebrada após a procissão das Panatenéias, que durava seis dias

Em cada uma delas, concorriam apenas três poetas, escolhidos pelo Honorável Arconte, o patriarca da cidade. A inscrição era voluntária, cabendo ao autor apresentar três tragédias e um drama satírico, – uma tetralogia. Cabia ao Estado (Theorica) a premiação dos poetas e a manutenção, durante a temporada, do sustento dos hypocrites (os atores). Os integrantes do coro por sua vez eram mantidos por patrocinadores privados, em geral atenienses ricos que procuravam ganhar o respeito da sociedade e o reconhecimento público com a prática do mecenato. Feita a escolha dos três autores, o nome deles era submetido a uma votação por uma comissão de 500 juízes (50 de cada um dos demos da cidade) que colocavam o nome do seu preferido escrito numa pequena esfera que, depois, era depositada numa das dez urnas existentes no Pártenon. A obra daquele que foi indicado começa a ser representada a partir do horário matutino, sendo que as dos outros preencherão os dias restantes até que o festival se encerrasse. O poeta escolhido tinha o seu nome anunciado pelo heraldo e, em seguida, ele era coroado pelo Honorável Arconte com uma coroa de hera, a planta sagrada de Dionísio.

Dionisos, Ceres e Eros, Aachen, Jans von

Dionisos, Ceres e Eros, Aachen, Jans von

 

A filosofia à época da tragédia
Entende-se a época da Grécia Clássica como um dos momentos supremos da racionalidade humana, um dos poucos instantes em que imperaram as luzes em meio a um mundo de superstição, assustado pelas malignidades sobrenaturais. Essa interpretação, de viés iluminista, muito difundida até nossos dias, merece, porém alguns reparos. Estes só foram possíveis graças à intensificação da pesquisa erudita e de uma maior seriedade científica na historiografia moderna (estimulada de certo modo pelas intuições do poeta Hölderlin e de Nietzsche). O resultado da “reavaliação” indica uma sociedade grega muito mais complexa, onde os elementos racionais também estavam acossados pelo assombroso, pela superstição, misticismo e medo do oculto. Pelo menos numa escala bem maior do que suspeitavam os historiadores iluministas e positivistas do século passado.

Apolo e Dafne - Bernini, Gian Lorenzo

Apolo e Dafne - Bernini, Gian Lorenzo

Daremos alguns exemplos de como conviviam dialeticamente esses elementos racionais e irracionais entre alguns pensadores e políticos do período clássico. Representativo é caso de Xenofonte que relata na parte final da “Anábasis”, na qual ele aborda a importância dos rituais interpretativos (a análise das vísceras de um animal sacrificado) para decidir o destino da tropa que ele comandava, alertando os seus leitores para os perigos que incorrem aqueles que não observam os augúrios. Em nenhum momento esses discípulo de Sócrates pôs em dúvida a validade de tal tipo de crença.

mulher grega - Courbet, Gustave

mulher grega - Courbet, Gustave

O helenista suíço André Bonnard também mostrou essa ambigüidade do universo cultural helênico. Nem mesmo as escolas filosóficas escaparam de escorregadelas nas crendices populares. Demócrito, o filósofo atomista, levando ao extremo o seu materialismo, acreditava que o sangue das mulheres menstruadas servia com um perfeito antídoto contra os insetos devoradores de cereais. Temístocles, o consagrado herói da vitória sobre os persas, não hesitou em sacrificar vidas humanas aos deuses nas vésperas da vitória de Salamina (repetindo um ritual que em nada deveu aos praticados nos tempos arcaicos, quando o rei Agamennon, por exemplo, imolou a própria filha).

 

Agamenon - Bellucci, Antonio

Agamenon - Bellucci, Antonio

O Impacto do Racionalismo
Apesar dessas pulsões do irracional (há um célebre ensaio do helenista E.R. Dodds sobre isso), foi inegável o impacto do pensamento racionalista sobre a sociedade grega em geral, ajudando-os a superarem o domínio dos mitos pelo domínio da razão. E aqui nos demoraremos para descrever sinteticamente como se processou esse fenômeno, dando-lhe uma origem material. No século V a.C., o século de ouro da cultura grega, ocorreu uma radical mudança no pensamento convencional, tributário do mundo místico-rural. A ampliação das relações econômicas dos gregos para regiões cada vez mais distantes fez com que o pensamento convencional, de origem rural, entrasse em crise. As cidades crescem e com elas a presença das classes médias aumenta. Nota-se por toda a parte uma descrença generalizada nos deuses homéricos. O filósofo Xenófanes ironizou a religião dizendo que “se os cavalos pudessem se expressar criariam deuses feitos a sua imagem”. As antigas escolas racionalistas-naturalistas (como a de Mileto) que discutiram exaustivamente a composição do mundo material deram lugar, desde Sócrates, aos debates humanistas, que cuidaram então de determinar se os valores humanos (tais como o da idéia do bem e da idéia do belo) eram ou não permanentes. Com a expansão da democracia, questionou-se tudo. Os sofistas, mestres profissionais da palavra e do pensamento, emergem com vigor naquele mesmo século lançando dúvida sobre tudo aquilo que lhes parecia ortodoxo ou dogmático. Nesta polêmica embarcam Sócrates, o maior dialeta ateniense, e seu jovem discípulo Platão, que procuram erguer limites à avalanche dos sofistas.

Os sofistas, Botticelli, Sandro

Os sofistas, Botticelli, Sandro

A polêmica foi tão intensa que afetou as artes cênicas. Tanto na comédia de Aristófanes como nas encenações trágicas de Eurípides verifica-se quão profundamente o espírito da desconfiança no que era estabelecido enraizou-se na população ateniense. O desafio dos sofistas ao pensamento convencional e à ortodoxia religiosa auxilia-nos a compreender a função que a Tragédia irá ocupar – a tarefa de voltar a agregar pela emoção violenta o que se desagrega na esfera das crenças. Para Nieztsche, porém, a desagregação que mais tarde iria ocorrer com a representação do trágico. que ele considerava a melhor expressão da vitalidade do grego, deveu-se ao espírito excessivamente inquisidor de Sócrates. Ao querer, o filósofo, saber a origem dos comportamentos morais, ao exigir, para todas as sensações, uma explicação lógica, ele teria inibido a espontaneidade necessária à representação dramática. O socratismo teria sufocado a livre manifestação dos instintos básicos.

7
out

Nietzsche e a moral

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Nietzsche

Nietzsche

A busca do bem e do aperfeiçoamento moral e, num sentido mais abrangente, toda a função educadora do ethos, no qual se encontra o sentido originário da educação, é vista por Nietzsche como uma história de crueldades.

A Genealogia da moral mostra a formação de nossas noções e valores morais produzidos pela educação como tentativa impiedosa de submeter a natureza impulsiva. No prefácio da obra, o autor pergunta: “Sob que condições inventou-se o homem aqueles juízos de valor, bem e mal? E que valor têm eles mesmos? Obstruíram ou favoreceram até agora o prosperar da humanidade?… Nós necessitamos de uma crítica dos valores morais, é necessário uma vez colocar a pergunta sobre o valor desses valores – e pra isso se necessita do conhecimento das condições e circunstâncias nas quais surgiram esses valores e nas quais se desenvolveram e modificaram  (moral como conseqüência, como máscara, como sintoma, como tartufaria,  como doença, como mal-entendido, mas também moral como causa, como remédio, como estímulo, como inibição, como veneno) como um conhecimento que não teve até agora e nem foi desejado”.

tragedia

Nietzsche faz a denúncia de todo o sistema de crenças e valores, mostrando o que ele tem de ilusório e doentio. Ao erigir um pensamento, uma moral, o homem deseja impor ordem ao mundo, tem ansiedade de sentido e não quer aceitar que todas as suas objetivações são frutos do desejo de que tudo caiba nos produtos do pensar. Isso é o “auto-engano original do intelecto”. A capacidade de conhecer e produzir valores deriva da vontade de potência. Na vida, a vontade de potência, de auto-afirmação se manifesta em todos seus movimentos instintivos. Quando o homem entra em contato com algo, ele o faz para conservar-se, e disso resulta a pluralidade de forças, de perspectivas que lutam pelo poder.

guerra

guerra

Não há assim um poder transcendente que dê sentido à vida, nem a religião, nem a moral legitimada pelo supra-sensível, pelo a priori, pelo princípio causal. È a partir daí que verdade, unidade, finalidade, categorias centrais da metafísica, entram em decadência. Convicções são prisões; diz Nietzsche no Anticristo e, em Além de bem e de mal, acusa a metafísica pela crença na oposição de todos os valores. Nessa perspectiva a imposição de um ideal, de um indicativo de vida correta seria contra a vida, uma vez que um ideal é uma renúncia à realidade, que se contenta com abstrações. Nietzsche, então, expõe o avesso do aperfeiçoamento moral, concentrando sua crítica contra toda forma de ascese, que traz o esvaziamento da força vital: “O ideal ascético brota do instinto de proteção e de cura de uma vida em degeneração, que, por todos os meios, procura manter-se e combate por sua existência; é indício de uma parcial obstrução fisiológica e de um cansaço, contra os quais os mais profundos instintos da vida, que permaneceram intactos, lutam sem descanso com novos meios e invenções. O ideal ascético é um desses meios: é, pois, precisamente o inverso do que pensam os que veneram esse ideal – a vida luta nele e por ele com a morte e contra a morte, o ideal ascético é um artifício de conservação da vida”. (Genealogia da Moral).

classicismo8

suprasensivel

Nietzsche pergunta se toda nossa tradição moral, eivada de ideais platônicos e de valores cristãos, pode realmente conduzir-nos a um aperfeiçoamento, isto é, se a moral melhora a condição humana. Conclui que, ao contrário, a moralidade nada tem de elevação, mas é a desvalorização da vida, a recusa da diversidade de experiências, o freio das pulsões, a negação da finitude.

A ausência de sentido provocada pela queda dos valores transcendentais traz a constatação da existência do niilismo (já em andamento no seu tempo). A vida humana se enquadrava num sistema de valores e sentidos, cuja base era a religião ou a metafísica, e que agora estão desvalorizados; falta-lhes o porquê. Ao radicalizar tal niilismo Nietzsche faz a crítica dos fundamentos desses valores e indica a enfermidade da alma moderna. Segundo Vattimo, o niilismo é a versão nietzschiana para o desencantamento da modernidade. O homem moderno foi capaz de perceber o caráter fictício da própria moral, da religião e da metafísica e o desencanto é a tomada de consciência de que não há estrutura, leis e valores objetivos. Dessa forma, o que existe é criado pelo homem, fruto de seu impulso explicativo proveniente da lógica, que tudo enquadra em categorias. “De onde nasceu o lógico na cabeça humana?” pergunta Nietzsche. “Com certeza da não-lógica, cujo reino, na origem, há deter sido descomunal. Mas inúmeros seres, que inferiam de modo diferente do que nós inferimos agora, sucumbiram. (…) A tendência preponderante, porém, de tratar o semelhante como igual, uma tendência ilógica – pois não há em si nada igual –, foi a primeira a criar todos os fundamentos em que se assenta a lógica. Desse modo, para que surgisse o conceito de substância, que é imprescindível para a lógica (…), foi preciso que por longo tempo o mutável nas coisas não fosse visto, não fosse sentido.”

romantismo1

 

Jesus crucificado

Jesus crucificado

A morte de Deus 

representa que não temos mais um saber dependente de causas últimas, perdemos as referências metafísicas, morre a razão, o sentido e rompem-se as cadeias da lógica. Isso aparece na célebre passagem O Louco, em A gaia ciência, quando, metaforicamente, o filósofo anuncia as terríveis conseqüências da morte de Deus, que teria sido um feito grande demais para nós. Heidegger ao interpretar o significado da frase “Deus está morto”, indica que o mundo supra-sensível da metafísica perdeu sua força e toda a filosofia ocidental chegou a seu término. Não havendo mais força vinculante, especialmente força capaz de despertar e construir, nada mais reta ao homem que faça sentido. Nietzsche tem assim uma autocompreensão de que sua filosofia é uma reação contra a metafísica e contra o idealismo. O niilismo não é uma manifestação da decadência, mas o processo fundamental da história do ocidente e, sobretudo, a legalidade dessa história. Para Vattimo, “Deus morre porque se deve negá-lo em nome do mesmo imperativo de verdade que sempre se apresentou como sua lei e com isso perde também sentido o imperativo da verdade. (…) Aqui, no acento do caráter supérfluo dos valores últimos, está a raiz do niilismo consumado”.

O niilismo é um “estado psicológico” que conduz à busca de significação para todas as coisas, mas sem encontrá-la: “O que acontece na realidade? Ao compreender que o caráter total da existência não reside na finalidade, nem na unidade ou na verdade, somos atingidos por um sentimento de desvalorização, porque não obtivemos nada com nosso esforço, não existe uma percepção compreensiva da multiplicidade da vida, a existência não é verdadeira, mas falsa…, não há mais razão nenhuma que nos convença da verdade do mundo… Em poucas palavras: categorias como ‘finalidade’, ‘unidade’, ‘ser’ que serviram para dar valor ao mundo, são abolidas – e nos encontramos diante de um mundo desvalorizado”.

Nietzsche certamente percebeu a impossibilidade de fundamentação da moral e remete para a vontade de potência que cria valores. Toda a forma de valoração é uma perspectiva, a serviço da vontade de potência. O diagnóstico do niilismo propõe uma “objeção fundamental” contra “todas as teodicéias ou cosmodicéias filosófico-morais, contra todos os porquês e contra os valores supremos das filosofia existentes até agora, inclusive da filosofia da religião, nas quais o meio se confunde com o fim, a vida e seu incremento para a potência ficam degradados a simples meios”.

classicismo2

Dessa desilusão metafísica proveniente do niilismo provém a criação de valores: nem bem nem mal, mas a transvaloração de todos os valores. Nietzsche teria então caído numa outra metafísica, em que a fonte de toda a valoração seria a vontade de potência. No pensamento de Nietzsche acontece a destruição da metafísica a partir dela própria. “Deixa-se mostrar que dela, justamente como do píncaro supremo da ‘metafísica da subjetividade’, essa subjetividade despenca no infundado. A metafísica ‘vontade de vontade’, na figura da vontade de poder transparente a si mesma, se torna querer-do-querer, que não mais remete a um alguém que quer, à vontade, mas tão-somente à estrutura do volitivo, que, perguntado pelo seu derradeiro, fáctico ser-dado, subtrai-se no in-flexível. Não há dúvida de que Nietzsche permanece metafísico.

renascimento8

A crítica de Nietzsche à tradição metafísica colide com a teoria educativa, embasada na dialética da objetividade e da subjetividade, pela qual adquirem importância as relações entre indivíduo e sociedade e a ação transformadora do sujeito autônomo na busca de aperfeiçoamento moral e de um estado melhor para a humanidade. O pensamento nietzschiano coloca sob suspeição as expectativas de construção do sujeito soberano e toda a tradição do humanismo, revolvendo as convenções que o produzem, mostrando o avesso de uma filosofia que já não dá conta da vida porque sucumbe à pura abstração. Trata-se, portanto, de uma teoria que cancela ou, pelo menos, suspende o sentido da educação voltada para o bem e o aperfeiçoamento moral.

A radicalidade com que Nietzsche ataca todos os fundamentos metafísicos e todos os ideais repõe a pergunta sobre as relações entre ética e educação, uma vez que desautoriza um ideal com validade universal, recusando as sólidas verdades que asseguram a intervenção pedagógica, as certezas emancipatórias e as expectativas de controle sobre o comportamento correto.

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