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Hans-Georg Gadamer
A liberação da questão da verdade a partir da experiência da arte.
O fato de dedicar a primeira parte de sua obra à arte obedece aos seguintes motivos: Para Gadamer, a arte representa uma experiência extra-metódica de verdade. Em segundo lugar, a obra de arte coloca sempre problemas hermenêuticos. Finalmente, os conceitos empregados por Gadamer para descrever a experiência estética, são fundamentais, também, para descrever a estrutura da compreensão, da linguagem e da verdade.
Gadamer critica a forma moderna de entender a arte como fato separado da vida total do homem, que nada tem a ver com as questões do verdadeiro e do falso. Privada de todo valor veritativo, a arte se afigura como um mundo de aparências oposto ao mundo do conhecimento e da ciência. O principal responsável da subjetivação da estética moderna é Kant. “O que Kant de sua parte legitimou e queria legitimar através de sua crítica do juízo estético era a universalidade subjetiva do gosto estético… A subjetivação radical implicada na refundamentação da estética de Kant marcou verdadeiramente uma época“.

Imanuel Kant
Gadamer pretende manter o caráter veritativo da arte, e o principio de que a arte não é um sucesso onírico, mas uma experiência do mundo e no mundo, que modifica radicalmente a quem a faz. A arte é conhecimento, na experiência da arte há uma reivindicação de verdade diferente daquela da ciência e não subordinada a ela. Sob este pressuposto, Gadamer elabora uma ontologia da obra de arte, que mostra suas estruturas. Essa ontologia gira ao redor dos conceitos de: jogo, auto-representação, transformação, mímesis e representação.
A estética nos introduz no coração da hermenêutica, já que nela se dá necessariamente o problema do encontro entre o mundo originário da obra, e o mundo do intérprete. O problema da interpretação da obra conduz ao problema geral da interpretação: como pensar o passado através de nossa situação presente. Seguindo a Hegel, Gadamer afirma que não se trata efetivamente de restituir o passado, senão da mediação, obrada pelo pensamento, com a vida do presente.
Da extensão da questão da verdade à compreensão nas ciências do espírito
Aqui Gadamer enfrenta diretamente o problema da compreensão, elaborando sua teoria específica da experiência hermenêutica. A seção se divide em duas partes:
1. Preparação histórica: Gadamer oferece uma reconstrução histórica e crítica da hermenêutica romântica e historicista, que vai de Schleiermacher a Dilthey. Critica sua submissão ao método das ciências naturais e sua pretensão de objetividade, e mais fortemente seu descuido da historicidade do sujeito historiográfico, a des-historização do processo interpretativo (o passado é o objeto desta ciência, porém é interpretado desde um presente, e isso não é reconhecido pelos historicistas, que pretendem conferir à ciência histórica a capacidade de se transportar a cada época).

Martin Heidegger
Gadamer reivindica um saber histórico consciente de sua própria historicidade e não só da alheia, remetendo-se neste ponto a Heidegger, que outorga ao compreender humano uma historicidade radical, através da pré-compreensão. “Compreender é o caráter ontológico original da própria vida humana” e ainda, “todo compreender é um compreender-se“. A compreensão se move em uma situação circular na qual aquilo que se deve compreender é já, de alguma maneira, compreendido. Em virtude do círculo hermenêutico nada é dado como imediato, pois o indivíduo pertence originariamente ao passado, fato testemunhado pela existência de preconceitos e pressupostos.
O círculo hermenêutico tem um alcance ontológico e por tanto, não eliminável, o que não é problemático: o problema reside, não em sair do círculo, mas no estar dentro de um modo adequado, adquirindo consciência de nossos prejuízos desconhecidos. Nossos preconceitos não são aquilo que nos afasta dos textos, senão pela (única via de acesso aos mesmos: só no iluminismo a noção de preconceito adquire o caráter pejorativo que lhe atribuímos. “Uma análise da historia do conceito mostra que é somente na Aufklärung que o conceito do preconceito recebeu o matiz negativo que agora possui”. Em quanto esboço antecipado de conceito, o preconceito não implica necessariamente um juízo falso. Assim, o preconceito constitutivo do iluminismo, é o preconceito contra os preconceitos.
Essa rejeição dos preconceitos pressupõe o desconhecimento da finitude histórica do indivíduo, conseqüência do fato de que sua razão é razão real e histórica, que age num mundo histórico-social do qual sofre uma série de influencias. Muito antes de chegar à auto-compreensão, compreendemos segundo esquemas irreflexivos, de tal modo que nossos preconceitos constituem mais o nosso ser do que os nossos conceitos. “Se quisermos fazer justiça ao modo de ser finito e histórico do homem, é necessário levar a cabo uma reabilitação radical do conceito do preconceito e reconhecer que existem preconceitos legítimos“.

Gadamer e Habermas
O iluminismo distingue duas classes de preconceitos: os procedentes do próprio individuo, e os que derivam da autoridade. Isto significa que autoridade e razão são mutuamente excludentes. A autoridade aparece como o oposto à razão, quando, segundo Gadamer, não tem porque ser assim. Por isso assinala a necessidade de reabilitar a autoridade e a tradição, para recuperar os prejuízos. Esta tese tem sido fortemente criticada por Apel e Habermas, que acusam a Gadamer de conservadorismo. De qualquer forma, a doutrina da tradição serve para demonstrar que o homem não pode chegar a estar livre de toda atadura com o passado, e que a tradição é um momento constitutivo da atitude historiográfica.
2. Fundamentos para uma teoria da experiencia hermeneutica: A primeira das condições hermenêuticas é a pré-compreensão, que se determina em uma serie de preconceitos que testemunham de nossa pertença a uma tradição que liga intérprete e interpretado em um mesmo processo histórico, aproximando o texto do intérprete. Esta proximidade não exclui, não obstante, seu afastamento. Gadamer introduz assim a tese da simultânea proximidade e distancia do interpretado em relação ao intérprete.
A distância temporal do texto em relação ao intérprete, não representa um obstáculo a ser derrubado, mas uma condição propicia ao compreender. O tempo é o único que serve de ponte entre dois mundos, pois está preenchido pela tradição. A distância temporal nos permite distinguir os preconceitos verdadeiros dos falsos. A adequada consciência hermenêutica é aquela que inclui uma consciência histórica. Esta tese e desenvolvida por Gadamer, através do que ele chama história dos efeitos ou historia efetual.
“O principio da história efetual” consiste em que o trabalho histórico de descrição de um acontecimento, sempre deve ter presentes todas as conseqüências desse acontecimento, para que seja captado no decorrer da história. Isso significa que a tarefa interpretativa tem lugar em um contexto de interpretações já dadas, que agem sobre o interprete. Assim, este se encontra desde sempre em algum tipo de relação com o objeto a interpretar, seu lugar se encontra de algum modo determinado pelo objeto, ainda antes de iniciar a tarefa de interpretação.
À história dos efeitos, corresponde a consciência da determinação histórica, conceito que indica a determinação da historia sobre a consciência e, ao mesmo tempo, o conhecimento por parte da consciência dessa determinação. Trata-se, em definitiva, de uma consciência que é e sabe, exposta aos efeitos da historia. “Ser histórico quer dizer não se esgotar nunca no saber-se“.
Outro conceito fundamental é o da fusão dos horizontes: O horizonte é algo dentro do qual nós nos movimentamos e que se movimenta conosco. Ao contrário do historicismo, Gadamer sustenta que não há um horizonte em que esteja situado o intérprete, e outro para o qual se desloque, mas que existe um horizonte único. O deslocamento do intérprete a outra situação consiste em colocar-se a si próprio na situação do outro. Não obstante, Gadamer fala de fusão de horizontes, porque, mesmo que o horizonte seja único, existe uma alteridade entre o intérprete e o interpretado. Alteridade que evita, de um lado, que a compreensão seja uma identificação ingênua, e do outro lado, que consista em uma mera explicitação de preconceitos.
Compreender, explicar, aplicar (= interpretar), representam os três momentos sucessivos do trabalho hermenêutico. O terceiro momento foi excluído no romantismo e, comporta a atualização do passado sobre o presente, sobre cada presente, isso faz da compreensão um processo infinito.
O problema hermenêutico se dividia como segue: distingue-se uma subtilitas intelligendi, compreensão, de uma subtilitas explicandi, a interpretação, e durante o pietismo se acrescentou como terceiro componente a subtilitas applicandi, a aplicação (…) Esses três momentos devem perfazer o modo de realização da compreensão.
A dialetica de pergunta e resposta tem sua base em Platão. Gadamer afirma que o saber é dialético, porque é a arte de sustentar um verdadeiro diálogo, a capacidade de produzir, para além das mentes individuais, verdades meta-subjetivas e comuns. A experiência hermenêutica é uma forma de diálogo, pois consiste em entrar em diálogo com o texto. A dialética de pergunta e resposta é, assim, a 1ógica concreta do trabalho hermenêutico. “Essa é a razão por que a dialética se concretiza na forma de perguntas e respostas, ou seja, todo saber acaba passando pela pergunta. Perguntar quer dizer colocar no aberto“. Aproximar-se de um texto é reconstruir a pergunta da qual ele é resposta, para além das intenções conscientes do autor. Esta reconstrução da pergunta originária implica perguntar sobre o texto, o que já é solicitado pelo texto mesmo. De modo que nossa pergunta sobre o texto, é a resposta à pergunta que o texto nos dirige. Assim, o interprete resulta ser o interrogado.
As perguntas do intérprete pretendem reconstruir a pergunta originária, da qual o texto seria a resposta. Porém, esta pergunta reconstruída não está mais dentro do horizonte originário, de modo que se tem produzido uma fusão de horizontes.
