
Sócrates
Sócrates ensinou durante a guerra do Peloponeso. Ensinava em praças públicas, exortando os jovens a viver a virtude. Dele não sabemos muito, pois nada escreveu. A seu respeito preconizara a pitonisa do templo de Apolo que se tratava do mais sábio dos homens. Dois de seus discípulos mais fieis é que nos deixaram uma biografia mais precisa sobre essa enigmática e não menos admirável figura: Xenofonte e, sobretudo, Platão.
Platão, em inúmeros de seus escritos, apresenta o mestre como um espírito inquieto e audaz. Homem irônico, luminoso e perspicaz, de invejável autodomínio, preocupado com a educação da juventude e com a felicidade do homem em geral. A felicidade somente seria possível, graças à busca constante da justiça, tanto no homem quanto na cidade.
Sabemos da influencia de Sócrates na vida de Platão. A morte do mestre, em 399 a.C., deixou marcas indeléveis no jovem filósofo. Mesmo não estando presente no trágico e último momento de vida do amigo, Platão escreve o Fédon, diálogo de rara beleza literária, que retrata, com detalhes, o saudoso e último encontro de Sócrates com seus amigos mais íntimos. No final desse diálogo, aparece um testemunho vivo de um dos presentes: “Tal foi o fim de nosso companheiro. O homem de quem podemos bendizer que, entre todos os de seu tempo, que nos foi dado conhecer, era o melhor, o mais sábio e o mais justo“.

Morte de Sócrates
No diálogo Fédon, Sócrates aparece como um homem imbuído de uma profunda fe e religiosidade, de raro equilíbrio e dignidade. Não se desespera diante da morte. Aceita-a com liberdade e resignação. Nada pode abalar sua paz interior, fruto de uma vida vivida segundo a própria consciência e razão. Sócrates, o homem reconciliado com a própria história, conseqüência de uma vida virtuosa e reta, aproveita seus últimos momentos neste mundo para dar aos seus discípulos uma aula sobre a imortalidade da alma. Reconforta-os e prepara-os para o futuro. Diante dos prantos e lamentações dos amigos, exclama: “Que gente incompreensível! Se mandei as mulheres embora, foi sobretudo para evitar semelhante cena, pois, segundo me ensinaram, é com belas palavras que se deve morrer. Acalmai-vos, vamos! Dominai-vos!”
Ninguém encarou o mestre ideal de um modo mais pleno, a ponto de, na maioria de seus diálogos, Platão colocar Sócrates como protagonista, e, por vezes, é difícil distinguir o que pertence genuinamente a um ou a outro.
Sócrates considerava seu dever imperioso abrir os olhos dos demais aos bens mais excelsos da vida humana que são os da alma. Diferentemente dos sofistas, acreditava na existência de uma ordem universal e de verdades e valores morais absolutos. Sua função na educação do espírito do seu povo, de modo especial dos jovens, tinha para ele um caráter sagrado. Educar, para Sócrates, era uma missão e um imperativo legado a si pelos próprios deuses.
O autoconhecimento do ser humano era um dos elementos fundamentais preconizados pela educação socrática: “Conhece-te a ti mesmo!” Dessa frase, inscrita no templo de Apolo, Sócrates faz o programa de sua vida e a recomendação básica feita aos seus discípulos.






Com essa nova realidade política floresceram as escolas sofísticas. Os sofistas são antes de tudo professores da arte do bem falar, a retórica. Sendo mestres de “persuasão”, eles foram acusados de transmitir um conhecimento enganoso, graças à pretensão impossível de tudo saber.
Com as idéias naturalistas dos pré-socráticos sendo colocadas em xeque pelos sofistas, Sócrates viu a necessidade de recolocar em discussão a imagem do homem e sua forma particular de existência, dentro das coisas naturais. Já se sabia que esse ser possui uma “estranha propriedade” que o distingue dos outros seres vivos: seu “modo de funcionamento” (ergon) é em parte indeterminado, o que significa que ele aparentemente “escapa” àquela ordem inflexível do destino cósmico, tal como ela é percebida nos outros seres.
Sócrates acredita radicalmente no valor do logos de cada um, que é o mesmo e único logos que determina a verdade de todas as coisas: há que se buscar a verdade a partir de um “conhecimento de si”, de um “autodomínio” em termos de pensamento e ação, no exercício de sua missão, como ele considerava a discussão filosófica, a ação de conduzir pelo diálogo à busca da verdade, e não à mera vitória verbal pelo belo discurso, como os sofistas faziam.
A capacidade de agir bem, a virtude (Arete) é uma capacidade de todos, más só pode ser desenvolvida se houver a disposição para realizar o esforço necessário para buscar a verdade. O (agir) mal decorre, portanto, antes de tudo, de um estado de ignorância da verdade e da justiça. Não existe uma “maldade inerente” ao homem. Existe, talvez, uma “ignorância”, que pode ser superada por uma educação apropriada, a ser conduzida principalmente pelo diálogo, pela convivência orientada pelos bons argumentos e pela prática do esforço constante de autoconhecimento.