
Santo Agostinho
Tanto Platão como Aristóteles haviam afirmado que existe uma faculdade de juízo racional aplicada a escolher a forma correta de agir. A excelência no exercício desta faculdade constitui a virtude intelectual da sabedoria prática – prudência – e a virtude moral está em agir de acordo com suas determinações. Na ética religiosa elaborada inicialmente pela Patrística, o termo usado para referir-se a esta capacidade é syndéresis. Posteriormente tornou-se habitual usar o termo “consciência” para designar a capacidade de distinguir o bem do mal ao nível das ações particulares.

A lei de Deus inscrita na alma humana
A partir de Agostinho, predomina uma concepção intuicionista do pensamento moral, segundo a qual a consciência é uma faculdade inata que revela a lei moral de Deus, inscrita na alma dos homens. Nesse sentido, as “leis naturais” inscritas no homem são mandamentos divinos e não simples disposições que favoreçam o desenvolvimento humano. O tema central da filosofia de Agostinho será a alma que vive no mundo, mas com Deus. O diálogo que o homem pode manter consigo próprio é, ao mesmo tempo, diálogo com Deus.
Para Agostinho, todas as coisas estão submetidas à lei divina que ilumina nossa inteligência. Contudo, não basta que o homem conheça a lei, é preciso querê-la, e com isto se coloca a questão da vontade. A alma é movida pelo amor que, em última instância, é o que qualifica a vontade: a vontade perversa é o mau amor, enquanto a boa vontade é o bom amor, bom amor que é a caridade.

A cidade terrena
A história humana é uma luta entre dois reinos: entre o de Deus e o do Mundo, entre a cidade terrena e a cidade de Deus. Tanto a ética quanto a política devem partir do pressuposto de que o fim último do homem é descobrir Deus, que reside na alma humana – é a busca de Deus na interioridade. O destino do homem não pode se realizar na ordem natural, porque o homem almeja algo para além da ordem do mundo. O homem não é só vida, mas também espírito. Portanto, cada homem tem um destino sobrenatural e sua vida terrena é apenas uma prova, e nunca o fim.

Adão e Eva - Gossaert, Jan
Todo problema moral é sempre uma questão de decidir entre o Bem e o Mal. A vontade, graça divina, em si mesma é um bem; mau é o uso que o homem dela faz, sendo o pecado justamente o mau uso da graça. O mal não reside, pois, nas coisas, mas no amor que destinamos às coisas, quando as preferimos a Deus. O mal está no uso inadequado da graça divina; está na vontade que subordina os bens superiores aos inferiores. Então, a liberdade humana não é absoluta. Adão perdeu a plena liberdade que Deus havia concedido ao homem. Resta-lhe apenas a liberdade de escolha, o que não o livra do mal, uma vez que pode ainda escolhê-lo.
A idéia agostiniana de uma “consciência moral” que só funciona se a vontade aderir ao conhecimento deriva da noção de ascese de Platão. A graça divina que é a vontade humana deve funcionar do seguinte modo: o amor atrai uma alma até Deus do mesmo modo que o peso atrai um corpo para a terra. Mas, como Deus está em cima, a direção da atração da alma é “para cima”, isto é, a direção correta para a alma é a de uma fuga para longe do mundo. Isto desloca, definitivamente, a atenção moral para o estado mental do agente (o interior). Duas pessoas podem realizar atos do mesmo tipo, mas talvez só uma possa ter mérito moral nissso, ao fazê-lo por amor e não pelo desejo de ser reconhecido (farisaísmo). Emerge, assim, a noção cristã da “intenção”. Os pecados podem ser cometidos não apenas por atos visíveis, como se vê na concepção grega de “falta moral”, mas também por palavras e intenções.




