Archive for the ‘vontade’ Category

9
nov

Arthur Schopenhauer

   Posted by: Héctor Hugo Palacio Tags: , , ,

 

Shopenhauer

Shopenhauer

Arthur Schopenhauer nasceu aos 22 de fevereiro de 1788, em Dantzig, de família abastada: seu pai era banqueiro, e a mãe, escritora. Apesar de sua inclinação para os estudos, os pais o fizeram seguir a carreira comercial. Depois da morte do pai, pôde retomar os estudos na Universidade de Iena, onde, em 1813, laureou-se em filosofia com a tese: Sobre a quádrupla raiz do principio de razão suficiente. Em 1819 publicou sua obra mais importante: O mundo como vontade e representação. Em 1820 obteve a livre-docência na Universidade de Berlim, onde ensinou sem nenhum sucesso até 1832, quando decidiu abandonar o ensino e retirar-se para Frankfurt sobre o Meno, onde permaneceu até a morte (1860). Sua última obra, Parerga e paralipômenos, foi publicada em 1851.

 Schopenhauer foi um dos primeiros críticos do idealismo e, em particular, de Hegel. Contra as teses que exaltam o domínio absoluto e incontrastado da razão sobre a natureza e a história, ele mostra os absurdos da existência humana e da história: o mal, a dor, as guerras, as desgraças, o ódio, a vingança, a crueldade etc., e atribui a sua causa ao domínio de uma vontade cega, inflexível, cruel. Schopenhauer dá forma sistemática a sua visão pessimista da realidade na obra o mundo como vontade e representação, cujo titulo já exprime a sua intuição fundamental. Partindo da distinção kantiana entre fenômeno e númeno, mas modificando os significados, ele identifica o mundo dos fenômenos (da representação) com o mundo da razão, e o mundo numênico (o mundo verdadeiro, real) com o da vontade.

 Hegel afirmara que a realidade suprema é o pensamento e que todas as coisas, manifestações dele, constituem um universo racional e, em ultima análise, bom; Schopenhauer observa que a experiência mostra justamente o contrário: desgraças, maldades, fatalidades, horrores. Logo, a realidade suprema, origem de todas as coisas, não é a idéia, a razão, o pensamento, mas uma vontade cega. É nela que tem origem todas as coisas e todos os acontecimentos; isto explica o seu caráter completamente irracional.

 

Schopenhauer

Schopenhauer

O argumento com o qual Schopenhauer prova a prioridade da vontade sobre qualquer outra realidade é o seguinte: “A vontade, longe de ser, como admitiram todos os filósofos anteriores, inseparável do conhecimento, antes, puro resultado dele, é radicalmente distinta e totalmente independente dele, que, na verdade, é secundário e de origem posterior; segue-se que a vontade pode existir e exprimir-se sem o conhecimento, como é o caso em toda a natureza, da animal para baixo. Melhor, a vontade, como a única coisa em si, a única verdadeira realidade, o único princípio originário e metafísico num mundo no qual todo o resto é pura aparência, ou mera representação, confere a todas as coisas, sejam elas quais forem, a força em virtude da qual elas existem, a força em virtude da qual elas são e agem; porque não só as ações arbitrárias dos seres animais, mas também as funções orgânicas dos seus corpos animados, ate mesmo a sua forma e natureza, também a vegetação e, por ultimo, no próprio mundo inorgânico, a cristalização (…) são exatamente idênticas com o que encontramos em nós mesmos como vontade, da qual temos o conhecimento mais direto e intimo possível (…). O conhecimento (com seu substrato, o intelecto), ao contrario, é um fenômeno inteiramente diferente da vontade, totalmente secundário, concomitante somente aos mais altos graus de objetivação da vontade, não importante para ela, independente da manifestação dela no organismo animal, logo, não metafísico como ela, mas físico”.

 A originalidade da concepção schopenhaueriana não esta na afirmação da prioridade da vontade sobre o resto da realidade. Antes já o tinham ensinado Scot, Occam e Descartes. A sua originalidade consiste na caracterização da vontade como força cega, arbitrária, tirânica e brutal, e no derivar dela todas as outras realidades.

 Os indivíduos não são mais do que a objetivação da vontade. A individualidade é pura ilusão, por meio da qual a vontade universal tende a perpetuar-se nas suas exteriorizações. Segundo Schopenhauer para conseguir os seus fins, a vontade se serve, nos seres inferiores, do instinto; no homem, da razão; a razão do homem está a serviço da irracionalidade da vontade universal, e, por isso, a racionalidade que o homem apreende nas coisas é totalmente ilusória. A própria razão é um engano da vontade universal; ela nos faz crer que temos valor pessoal, que somos livres, que tendemos a fins pessoais, que procuramos a nossa felicidade, mas, na verdade, ela, a vontade universal, serve-se de tudo isto para conseguir seus fins relativos à conservação e ao progresso da espécie humana.

 Também o amor é um engano; o amor a si mesmo é o engano do qual a vontade se serve para a conservação do individuo; o amor sexual é o engano do qual ela se serve para a conservação da espécie humana.

 Tudo o que parece bom, belo, agradável e amável ao homem é ilusão e engano: confirma-o o fato de jamais alcançarmos a felicidade.

 A raiz deste engano é a ilusão da individualidade. O resultado da descoberta do engano é a dor, a angústia desesperada, inevitável quando se descobre que este mundo é o pior que possa existir.

 A ética

 

Shopenhauer

Shopenhauer

A vida moral do homem consiste, segundo Schopenhauer, na renuncia à individualidade própria, no reconhecer-se como pura expressão da vontade universal, no abandonar a pretensão de ter uma personalidade própria e de aspirar a uma felicidade pessoal. A vida moral consiste na libertação do espírito da individualidade mediante a arte, a simpatia e a ascese.

 A arte é o desapego do egoísmo no tocante as coisas, mediante a contemplação desapaixonada e desinteressada das mesmas. A simpatia é a superação do egoísmo em relação aos outros, por meio do amor ao próximo.

 A ascese é a superação completa do individualismo pela renuncia a tudo aquilo a que as paixões nos ligam. Com a renúncia, toda paixão se apaga, toda iniciativa se extingue: de ambicioso centro de vida, o homem se torna inerte momento da existência universal. O conhecimento da própria nulidade, o aniquilamento da própria singularidade, a identificação com a vontade absoluta e a sabedoria suprema. Somente quem aniquila a própria individualidade e se identifica com a vontade absoluta e que alcança a imortalidade.

 O motivo do pessimismo schopenhaueriano

 A doutrina pessimista schopenhaueriana se apresenta motivada como reação ao idealismo hegeliano (cuja assertiva fundamental “todo real é racional” parecia em estridente conflito com a experiência), em nome dos aspectos irracionais e fatalistas da realidade.

 Mas também a fórmula oposta, derivada da primeira, “todo real é irracional”, é constritiva e unilateral. Nas coisas encontram-se aspectos racionais e irracionais: notam-se nelas tanto o bem como o mal; na realidade a riqueza é tal que formulas simplistas, como as do otimismo e do pessimismo, não conseguem esgotá-las.

 O otimismo de Hegel e o pessimismo de Schopenhauer são pontos de vista extremos, que manifestam, cada um, apenas um aspecto da realidade.

Schopenhauer

Schopenhauer

 

Santo Agostinho

Santo Agostinho

                       

Tanto Platão como Aristóteles haviam afirmado que existe uma faculdade de juízo racional aplicada a escolher a forma correta de agir. A excelência no exercício desta faculdade constitui a virtude intelectual da sabedoria prática – prudência – e a virtude moral está em agir de acordo com suas determinações. Na ética religiosa elaborada inicialmente pela Patrística, o termo usado para referir-se a esta capacidade é syndéresis. Posteriormente tornou-se habitual usar o termo “consciência” para designar a capacidade de distinguir o bem do mal ao nível das ações particulares.

A lei de Deus inscrita na alma humana

A lei de Deus inscrita na alma humana

A partir de Agostinho, predomina uma concepção intuicionista do pensamento moral, segundo a qual a consciência é uma faculdade inata que revela a lei moral de Deus, inscrita na alma dos homens. Nesse sentido, as “leis naturais” inscritas no homem são mandamentos divinos e não simples disposições que favoreçam o desenvolvimento humano. O tema central da filosofia de Agostinho será a alma que vive no mundo, mas com Deus. O diálogo que o homem pode manter consigo próprio é, ao mesmo tempo, diálogo com Deus.

Para Agostinho, todas as coisas estão submetidas à lei divina que ilumina nossa inteligência. Contudo, não basta que o homem conheça a lei, é preciso querê-la, e com isto se coloca a questão da vontade. A alma é movida pelo amor que, em última instância, é o que qualifica a vontade: a vontade perversa é o mau amor, enquanto a boa vontade é o bom amor, bom amor que é a caridade.

A cidade terrena

A cidade terrena

A história humana é uma luta entre dois reinos: entre o de Deus e o do Mundo, entre a cidade terrena e a cidade de Deus. Tanto a ética quanto a política devem partir do pressuposto de que o fim último do homem é descobrir Deus, que reside na alma humana – é a busca de Deus na interioridade. O destino do homem não pode se realizar na ordem natural, porque o homem almeja algo para além da ordem do mundo. O homem não é só vida, mas também espírito. Portanto, cada homem tem um destino sobrenatural e sua vida terrena é apenas uma prova, e nunca o fim.

Adão e Eva - Gossaert, Jan

Adão e Eva - Gossaert, Jan

Todo problema moral é sempre uma questão de decidir entre o Bem e o Mal. A vontade, graça divina, em si mesma é um bem; mau é o uso que o homem dela faz, sendo o pecado justamente o mau uso da graça. O mal não reside, pois, nas coisas, mas no amor que destinamos às coisas, quando as preferimos a Deus. O mal está no uso inadequado da graça divina; está na vontade que subordina os bens superiores aos inferiores. Então, a liberdade humana não é absoluta. Adão perdeu a plena liberdade que Deus havia concedido ao homem. Resta-lhe apenas a liberdade de escolha, o que não o livra do mal, uma vez que pode ainda escolhê-lo.

A idéia agostiniana de uma “consciência moral” que só funciona se a vontade aderir ao conhecimento deriva da noção de ascese de Platão. A graça divina que é a vontade humana deve funcionar do seguinte modo: o amor atrai uma alma até Deus do mesmo modo que o peso atrai um corpo para a terra. Mas, como Deus está em cima, a direção da atração da alma é “para cima”, isto é, a direção correta para a alma é a de uma fuga para longe do mundo. Isto desloca, definitivamente, a atenção moral para o estado mental do agente (o interior). Duas pessoas podem realizar atos do mesmo tipo, mas talvez só uma possa ter mérito moral nissso, ao fazê-lo por amor e não pelo desejo de ser reconhecido (farisaísmo). Emerge, assim, a noção cristã da “intenção”. Os pecados podem ser cometidos não apenas por atos visíveis, como se vê na concepção grega de “falta moral”, mas também por palavras e intenções.

Creative Commons License
Diálogo com os Filósofos by Héctor Hugo Palacio Domingues is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at www.dialogocomosfilosofos.com.br. SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline