
Friedrich von Schiller
“A revolução no mundo filosófico abalou o fundamento sobre o qual a estética estava assentada, e seu sistema anterior, se é que se pode dar-lhe esse nome, foi deixado em ruínas.” É com essas palavras que, numa carta ao príncipe Augustenburg, Schiller descreve o estado de coisas em que se encontra a estética desde que seus alicerces foram estremecidos pela crítica kantiana.Depois de ter provocado tamanha reviravolta na filosofia teórica e na filosofia prática, a “revolução copernicana” chega enfim ao domínio estético: “Como não preciso dizer-lhe, príncipe, em sua Crítica do Juízo Estético Kant já começou a aplicar os princípios da filosofia crítica também ao gosto e, se não forneceu, pelo menos preparou os fundamentos para uma nova teoria da arte“.
Essas duas passagens, extraídas de uma carta de Schiller ao seu “mecenas” datada de 9 de fevereiro de 1793, dão uma idéia precisa de suas preocupações nessa época. Certamente elogiosas no que concerne ao desempenho da crítica kantiana na estética, se lidas com atenção – sobretudo a segunda – elas, elas mostram, porém, que a filosofia kantiana para Schiller parece carecer de um acabamento: a Crítica do Juízo, que abalara toda a estética de até então, não conseguira elevá-la à condição de doutrina do gosto. A estética kantiana parece ter permanecido uma mera “propedêutica” – a medida que “preparou os fundamentos” – a teoria da arte é, concordando neste ponto com toda a filosofia pós-kantiana, Schiller propõe-se como tarefa completar o sistema entrevisto por Kant: “Com efeito, eu jamais teria tido a coragem de tentar solucionar o problema deixado pela estética kantiana, se a própria filosofia de Kant não me proporcionasse os meios para isso. Essa filosofia fecunda, que com tanta freqüência tem de repetir que ela apenas demole e nada constrói, fornece as pedras fundamentais sólidas para erigir também um sistema da estética, e o fato de que não lhe tenha proporcionado também esse mérito eu só posso explicar como uma idéia premeditada de seu autor. Longe de considerar-me aquele a quem isso esteja reservado, quero apenas experimentar até onde me leva a trilha descoberta. Se não me levar diretamente à meta, ainda assim, não está de todo perdida a viagem pela qual se busca a verdade“.

É nesta linha de buscar os resultados últimos que despontavam já no horizonte da crítica kantiana que se inserem os ensaios estéticos de Schiller. Num destes, em forma de epístolas a seu amigo Körner, denominado Kallias ou sobre a Beleza (que foi escrito exatamente na mesma época que as Cartas a Augustenburg), o intuito é justamente mostrar aquilo que falta para a completude do sistema, a saber, uma dedução objetiva do juízo de gosto. Sem essa fundamentação objetiva, os juízos acerca do belo estão condenados a uma validade meramente empírica e subjetiva, condição a que não se juntaram nenhuma das teorias anteriores a de Kant e, a bem da verdade, nem mesmo esta. De resto, nesse texto Schiller confessa a seu amigo Körner sua própria impotência em solucionar o problema, sem recorrer a um conceito da experiência.
Ao buscar um fundamento objetivo para o belo, a estética de Schiller é animada por esse desejo de ver “o mais eficaz de todos os móbeis, a arte formadora de almas, elevado à condição de uma ciência filosófica“. Para tanto, essa nova disciplina não pode ser construída sobre um mero jogo subjetivo entre imaginação e entendimento – jogo mediante o qual Kant deduzia o juízo de gosto na Crítica do Juízo –, mas precisa, tanto quanto possível, ter uma pretensão à validade universal determinada na própria razão: “Assim como a verdade e o direito, também a beleza, parece-me, tem de residir em fundamentos eternos, e as leis originárias da razão tem de ser também as leis do gosto“. Todo o empenho de Schiller será, por conseguinte, o de mostrar como ocorre essa amarração do juízo estético aos princípios da razão – razão, aliás, não em seu uso teórico, mas em seu uso mais sublime, o prático. Com efeito, é unicamente sob a jurisdição da razão prática que podem ser dirimidas as controvérsias em que se viram enredados todos aqueles que algum dia refletiram sobre a questão estética. Numa carta a Körner de 25 de outubro de 1794, Schiller afirma estar convencido “de que todas as divergências surgidas entre nós e outros como nós, que de resto somos tão concordes no sentimento e nos princípios, provêm de que estabelecemos um conceito empírico de beleza, o qual, todavia não existe. Tínhamos necessariamente de encontrar todas as nossas representações /do belo/ em conflito com a experiência, porque a experiência não expõe absolutamente a Idéia do belo, ou antes, porque aquilo que se sente comumente como belo não é absolutamente o belo. O belo não é um conceito de experiência, mas antes um imperativo. Decerto, ele é objetivo, mas apenas como uma tarefa necessária para a natureza racional e sensível; na experiência real, porém, ela permanece comumente inacabada, e por mais belo que um objeto seja, o entendimento antecipador o torna um objeto perfeito ou o sentido antecipador o torna um objeto meramente agradável. É algo inteiramente subjetivo se sentimos o belo como belo, mas deveria ser algo objetivo“.

Friedrich von Schiller
Como se pode notar por esse trecho, Schiller parece não ver outra alternativa: uma vez que para fundamentar objetivamente o juízo de gosto é impossível dispor de um critério do tipo das ciências matemáticas ou físico-matemáticas, o único recurso é apelar para o mesmo procedimento utilizado por Kant na parte prática de sua filosofia. Ou seja, o critério de objetividade do belo – se é que há algum – não pode ser encontrado na ordem do ser (que no caso da estética é sempre particular, empírico), mas na ordem de um dever ser, que confere ao juízo estético o caráter de um imperativo. Assim, se não se pode afirmar que este ou aquele objeto seja de fato belo, e ainda que nenhum objeto no mundo efetivamente o seja, isso não exclui a possibilidade de direito do juízo de gosto puro, válido universalmente e a priori para todos, e não apenas de forma empírica e subjetiva para este ou aquele indivíduo. Tal como na moral, na estética importa descobrir “não os fundamentos daquilo que ocorre, mas leis para aquilo que deve ocorrer, mesmo que jamais ocorra“.
Seguindo o mesmo plano tratado por Kant na investigação do imperativo, Schiller poderá afirmar que o belo ou o juízo sobre o belo nunca é inteiramente puro, a medida que na experiência o homem sempre se entregará à contemplação estética conforme o seu estado de espírito momentâneo. Dessa forma, o equilíbrio perfeito necessário à apreciação “pura” do belo, “esse equilíbrio permanece sempre apenas uma Idéia, que jamais pode ser plenamente alcançada pela realidade. Nesta restará sempre o predomínio de um elemento sobre o outro, e o mais alto que a experiência pode atingir é uma variação entre os dois princípios /formal e material/, em que ora domine a forma e ora a realidade. A beleza na Idéia, portanto, é eternamente una e indivisível, pois pode existir um único equilíbrio; a beleza na experiência, contudo, será eternamente dupla, pois na variação o equilíbrio poderá ser transgredido por uma dupla maneira, para aquém e para além”.

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Na “realidade”, o belo tende ora para uma “beleza de fusão” ora para uma “beleza enérgica” (Carta XVI); como Idéia, porém, a beleza é uma só, indivisa (da mesma maneira que, para Kant, há várias formas de imperativo, mas uma única forma pura de obediência à lei, a do imperativo categórico). Entende-se então por que, para fugir do caráter empírico-subjetivo inerente aos juízos estéticos, Schiller recorre ao critério de validade objetiva proporcionado pelo dever ser (sollen).
Contudo, espelhando-se unicamente no modelo de validade do imperativo categórico, a nova doutrina estética a ser construída sobre princípios kantianos correria o risco de desabar num mero formalismo. Com efeito, Schiller mostrara que, se de um lado a estética apóia-se no modelo da moral de outro – e todo o seu esforço argumentativo nos ensaios “filosóficos” irá neste sentido – essa mesma estética corrigirá a parcialidade da visão moral contida no imperativo, dando-lhe um conteúdo e possibilitando sua aplicação no mundo. Decerto, é preciso levar adiante a empreitada crítica, mas despojando-a do aspecto formal que assumiu na filosofia pratica: “A pureza rigorosa e a forma escolástica em que são apresentadas muitas proposições kantianas emprestam-lhes uma dureza e uma especificidade que são estranhas ao conteúdo e, despidas desse véu, aparecem como antigas exigências da razão comum”.
Para Schiller, importa acima de tudo ter cuidado na hora de interpretar o mandamento capital da moral kantiana: “Na filosofia moral kantiana a ideia do dever é apresentada com uma dureza que afugenta toda graça e poderia facilmente induzir um entendimento fraco a buscar a perfeição moral pela via de um ascetismo lúgubre e monástico“. Mas foi também esse apego irrestrito à letra da lei moral que levou os seguidores de Kant a não enxergar o verdadeiro espírito de sua filosofia: “Observei amiúde que verdades filosóficas têm de ser encontradas em uma forma, e aplicadas e difundidas em outra. A beleza de um edifício não se torna visível antes que se retirem os apetrechos do pedreiro e do carpinteiro, e que se derrubem os andaimes por trás dos quais está erigido. Quase todos os discípulos de Kant, porém, permitem que se lhes arrebate antes o espírito que a maquinaria de seu sistema e, precisamente por isso, põem à luz que se parecem mais com o trabalhador que com o mestre-de-obras“.

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Trata-se, portanto, de não perder de vista o “espírito” do sistema que se quer construir, evitando a unilateralidade de uma “moral demoníaca” fundada exclusivamente no imperativo categórico, no ascetismo de uma “vontade santa” que obedeceria incondicionalmente à razão. Ora, a parcialidade dessa leitura dos chamados “rigoristas éticos” consiste justamente em desconhecer o fato de que a natureza humana é “mista”, ou seja, que é dotada não apenas de razão, mas de razão e sensibilidade. Sendo assim, permanecerá sempre uma empresa inútil a de querer elevar moralmente – isto é, racionalmente – o homem sem, ao mesmo tempo, cultivar sua sensibilidade.
É mediante a cultura ou educação estética, quando se encontra no “estado de jogo” contemplando o belo, que o homem poderá desenvolver-se plenamente, tanto em suas capacidades intelectuais quanto sensíveis. Esse é, aliás, o sentido da passagem mais famosa das cartas sobre A Educação Estética do Homem, a qual, segundo o próprio Schiller, “suportará o edifício inteiro da arte estética e da bem mais dificultosa arte de viver“: “Pois, para dizer tudo de vez, o homem joga somente quando é homem no pleno sentido da palavra, e somente é homem pleno quando joga” No “impulso lúdico”, razão e sensibilidade atuam juntas e não se pode mais falar da tirania de uma sobre a outra. Através do belo, o homem é como que recriado em todas as suas potencialidades e recupera sua liberdade tanto em face das determinações do sentido quanto em face das determinações da razão. Pode-se afirmar, então, que essa “disposição lúdica” suscitada pelo belo é um estado de liberdade para o homem.
Contudo, deve-se notar, a “liberdade estética” é uma liberdade sui generis e não deve ser confundida de modo algum com liberdade ou autonomia encontrada na razão prática: “Para evitar mal-entendidos, lembro que a liberdade de que falo não é aquela encontrada necessariamente no homem enquanto inteligência, liberdade esta que não lhe pode ser dada nem tomada; falo daquela que se funda em sua natureza mista. Quando age exclusivamente pela razão, o homem prova uma liberdade da primeira espécie; quando age racionalmente nos limites da matéria e materialmente, sob leis da razão, prova uma liberdade da segunda espécie. A segunda pode ser explicada somente por uma possibilidade natural da primeira“.

Friedrich von Schiller
No impulso lúdico, o homem não desfruta da liberdade moral stricto sensu, mas de uma liberdade em meio ao mundo sensível. Isso acarreta uma conseqüência importante: para Schiller, sempre que contempla um objeto belo, o homem está ao mesmo tempo projetando simbolicamente sua própria liberdade nesse objeto. No juízo estético, a razão empresta a sua autonomia ao mundo sensível e é por isso que se pode afirmar que o belo é “liberdade no fenômeno“.
Visto dessa perspectiva, o homem em sentido pleno – o homem lúdico – não busca apenas retirar-se à “clausura” de sua moralidade, mas empenha-se exatamente em dar vida as coisas que o cercam, em “libertar” os objetos que habitam sua sensibilidade, tornando possível um cultivo cada vez maior desta. O homem assim destinado a aperfeiçoar a realidade – seja ele o gênio que cria obras de arte ou o indivíduo de gosto que contempla o belo – é chamado por Schiller de nobre: “Onde quer que o encontremos, este tratamento espirituoso e esteticamente livre da realidade comum é o sinal de uma alma nobre. Deve ser dita nobre a alma que tenha o dom de tornar infinitos, pelo modo de tratamento, mesmo o objeto mais mesquinho e a mais limitada empresa. É nobre toda forma que imprime o selo da autonomia àquilo que, por natureza, apenas serve (é mero meio). Um espírito nobre não se basta com ser livre; precisa pôr em liberdade todo o mais a sua volta, mesmo o inerte“.
Desse modo, tenta-se operar uma mudança decisiva na tese kantiana de que tudo o que foi criado “pode ser usado meramente como meio; apenas o homem, e com ele todo ente racional é fim em si mesmo”. Sem duvida, o homem educado esteticamente respeita esse imperativo, mas vai além dele, visto que trata não apenas o ente racional, mas tudo à sua volta como dotado de autonomia. É por “enobrecer” também o universo da matéria que um tal indivíduo se torna, aos olhos de Schiller, um “homem virtuoso”; ou seja, aquele que toma como máxima de sua felicidade a plena realização da moralidade no mundo. À medida que busca realizar não meramente o fim estabelecido pelo dever, mas o “reino dos fins” na terra, o homem tem pleno direito de, por essa causa mais nobre, transgredir o dever: “o filósofo moral ensina-nos que nunca se pode fazer mais do que o dever, e tem razão, se visa apenas a relação das ações com a lei moral. Em ações, porém, que se referem meramente a um fim, ir ao supra-sensível para além desse fim (o que não pode significar aqui senão realizar esteticamente o físico), quer dizer ao mesmo tempo ir para além do dever à medida que este só pode prescrever que a vontade seja santa, mas não que a natureza já se tenha santificado. Embora não haja transgressão moral do dever, há uma transgressão estética do mesmo, e um tal comportamento é dito nobre”.

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Mediante essa concepção do homem educado pelo belo como indivíduo virtuoso, a estética acaba por reencontrar a virtude e a felicidade, doutrinas se não suprimidas pelo menos relegadas aos aposentos de fundo da moral kantiana. Nesse sentido, a estética para Schiller faz as vezes também de uma doutrina da virtude – de uma ética – que vem completar o sistema moral. Certamente anterior à composição das Cartas, essa visão pode ser encontrada já no ensaio Sobre Graça e Dignidade, quando se afirma que o homem “não só pode, mas também deve unificar prazer e dever; ele deve obedecer a sua razão com alegria“. A “cultura estética” é aquilo que deve conduzir a natureza humana à plenitude de seu desenvolvimento, à conjunção de suas forças sensíveis e racionais, enfim, à união de dignidade moral e felicidade: “É próprio do homem conjugar o mais alto e o mais baixo em sua natureza, e se sua dignidade repousa na severa distinção entre os dois, a felicidade encontra-se na hábil supressão dessa distinção. A cultura, portanto, que deve levar à concordância de dignidade e felicidade, terá de prover a máxima pureza dos dois princípios em sua mistura mais intima“.
É, portanto, apenas à luz dessa investigação sobre o homem como natureza sensível e racional, empenhando-se em unificar obrigação e felicidade, que se pode avistar o verdadeiro edifício que, segundo Schiller, Kant deixara premeditadamente de construir, e que deve abrigar a um só tempo a estética e a filosofia prática. Aqui, porém, surgem os problemas que tanto tem chamado a atenção dos comentadores: ao ser concebida como unificação (ideal) entre prazer e dever, não estaria a estética sendo subjugada ao dominio ético-moral, perdendo o belo seu caráter autônomo? Ou, por outro lado, não estaria a própria autonomia moral recebendo um principio heteronômico em seu interior? Enquanto Ideal a ser buscado, não seria a cultura estética já um fim, deixando sua condição de mero instrumento do progresso moral? Não seria a educação estética, pela própria condição mista da natureza humana, a meta última a que o homem pode aspirar para a sua humanidade?
Essas ambigüidades derivam, sem dúvida, da proximidade entre ética e estética na obra de Schiller. O homem estético (que é também o virtuoso) tem como imperativo aproximar dignidade e felicidade, dever e prazer no belo ou, sendo gênio, na obra de arte. Ora, visto que essa tarefa só pode ser solucionada por “aproximação”, já que o jogo estético puro é um Ideal inatingivel na realidade, não estaria a estética destinada a ser, paradoxalmente, um sistema jamais “acabado”? Criada à imagem e semelhança de uma natureza humana que ainda deve ser, não estaria a doutrina do belo fadada à condição de uma eterna ciência filosófica em construção? Ou quiçá sua força resida justamente nessa imperfeição?










